domingo, 16 de dezembro de 2007

O CÂNTICO ALEGRE DOS LIBERTOS

Texto Bíblico: Isaias 12.1-6 [1]

INTRODUÇÃO
Ø Natal é tempo de alegria apesar de tudo. É tempo de expressar o que de mais importante existe: A verdadeira vida que se manifestou para que todos possam viver, sem impedimentos.
Ø Natal é tempo de júbilo, de cânticos e de intenso sorriso: Porque chegou o tempo da libertação de todas as amarras.
Ø É no Advento que o preparo para a festa da revelação libertadora, não somente um dia do ano, mas em toda a existência, acontece.

EXPLICAÇÃO DO TEXTO
Ø O texto bíblico que acabamos de ler é um hino que se acha dividido em duas estrofes:
o Um solista entoa a primeira parte, repetindo três vezes “SALVAÇÃO”;
o Convida-se o coro a honrar o Santo de Israel.
Ø O hino começa com ação de graças, não por causa da ira, mas porque a ira justa e merecida foi retirada, e o consolo do Senhor deu vida ao povo (v. 1).
Ø No v. 2 há a recordação do Êxodo do povo de Israel (15.2). É uma citação tirada do refrão do cântico de Moisés, lembrando a grande libertação do cativeiro egípcio. Com a experiência do consolo interior e da salvação objetiva, o temor cede lugar à confiança.
Ø A salvação é descrita como fonte inesgotável. Pode evocar as fontes miraculosas do deserto (Ex 17.6), tendo Deus como a fonte sempre perene.
Ø Assim, não é mais trabalho penoso ir tirar água da fonte, como nos tempos de cativeiro, por exemplo.
Ø Quanto a nome do Eterno, este nome revelado de maneira profundamente libertadora, é revelado para invocação, adquirido por suas proezas e que o povo da Aliança deve propagar pelo mundo inteiro.
Ø A presença do Santo de Israel no meio do povo é o fundamento da vida salva, e por isso, o cântico alegre dos libertos।

1 – TEM COMO BASE A SALVAÇÃO DO DEUS LIBERTADOR
A) Somente no Senhor Israel encontrou a salvação; a libertação das prisões que faziam o povo gemer de dor e chorar profundamente.
B) A salvação não pode ser conquistada pelo homem, pois ela é somente de Deus.
C) Ninguém, por suas próprias forças, pode adquirir a libertação, redimensionando a sua vida para Deus se não for pela ação do próprio Deus.

2 – RESULTA EM CONTÍNUO TESTEMUNHO DE VIDA
A) Testemunho de vida é entrega a Deus e ao seu serviço. É proclamar por toda parte o que ele realizou e realiza.
B) É tornar manifesto por toda a terra os feitos do Senhor, fazendo a recordação do seu nome que é excelso.
C) Ninguém deve fazer a obra de Deus com tristeza, mas com alegria, pois ele é quem dá a vida e tudo o ela precisa.
D) Felizes são os que anunciam a Boa Nova de grande alegria.

3 – RECONHECE QUE O DEUS LIBERTADOR É PRESENTE
A) O Santo de Israel não é somente do passado, mas também do presente; e quanto ao futuro a vida está nas suas mãos.
B) Deus não está preso ao tempo. Ele é eterno. Ele é onisciente, onipresente e onipotente.
C) Todas as pessoas são convidadas para o reconhecimento de que Deus é presente. Exultar de forma jubilosa, porque o Eterno é Criador e Libertador.

CONCLUSÃO
Ø A Salvação que foi revelada em Jesus Cristo o Senhor do Natal é o ato do próprio Deus que se revelou para devolver a alegria da vida.
Ø A pessoa liberta, propaga os feitos do Senhor com júbilo, pois é a forma de serviço ao Reino de Deus.
Ø O cântico alegre do liberto revela que Deus é presente para salvar e confortar.
Ø E assim se manifestou a graça salvadora a todas as pessoas, para que no tempo oportuno que é hoje, há grande libertação।

[1] ROCHA, Nelson Célio de M. (Rev.). Rio de Janeiro, dezembro de 2007.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O GRANDE JULGAMENTO [1]
Texto Bíblico: Mateus 25।31-46
INTRODUÇÃO
· Neste último domingo do Tempo Comum a leitura do Evangelho de Mateus nos possibilita refletir num dos pontos mais distintos da Teologia, mais precisamente da Escatologia. Assim, se pode afirmar que o Senhor Jesus voltará a este mundo.
· Não podemos deixar de pensar que as coisas não permanecerão como estão: injustiça, violência, discriminação, desigualdade, desamor... De todas as nossas obras Deus pedirá contas. O seu juízo será inevitável.

EXPLICAÇÃO
· O tempo em que agora estamos vivendo é um tempo de espera, de vigilância. Mas haverá o tempo em que o Senhor Jesus voltará. “Quando vier o Filho do homem na sua majestade...” (Mt 25.31). Aquele que viveu entre nós, sofreu, morreu, ressuscitou e foi assunto aos céus, voltará em majestade.
· A Igreja é exortada, enquanto Jesus não volta, a estar atuando no mundo, fazendo a vontade do Senhor com obras visíveis. A mera teoria não se refere tão somente ao que a Igreja tem de realizar, mas implica em que tem de haver uma prática que envolva a vida cristã, no seu aspecto mais singular.
· O texto se abre com a solene apresentação do Juiz de toda a terra. Ele virá como o Filho do Homem real do livro profético de Daniel (7.13-14). Virá com seus anjos e se assentará no seu trono para julgar todas as pessoas, individualmente.
· Haverá uma grande separação: “...e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à sua esquerda” (Mt 25.33). Ninguém escapará ao seu julgamento. Todos serão julgados. Por isso será “O grande julgamento”.
· O Evangelho também indica qual será o critério desse julgamento: o que as pessoas tiverem feito ou não. Daí, cai por terra o que alguns pensam sobre o estar salvo, bastando apenas crer em alguns dogmas eclesiásticos. O crer implica em prática de boas obras, que são potencialmente o resultado da salvação.
· As boas obras são, de fato, ação dos que foram eleitos por Deus. A salvação tem a ver com boas obras. Todo salvo tem a salvação, que é a obra de Cristo pelas pessoas e pela criação toda; se alguém foi alvo da salvação, logo tem por finalidade praticar boas obras; exercitar a caridade.
· As perguntas são de caráter didático: “Senhor, quando foi que te vimos...?” (Mt 25.37; 44). Fazem um coro reflexivo para hoje. Para pensarmos.
Os aspectos e critérios básicos desse “Grande Julgamento”:

1. O CRITÉRIO DE JUSTIÇA É EXIGIDO DE FORMA PLENA PELA PALAVRA DE DEUS
A) Deus é justo e exige que seus filhos e filhas pratiquem a justiça, como antecipação do Reino de Deus que será instaurado.
B) No Antigo Testamento, a justiça de Deus não deixa escapar os pontos referentes à vida comprometida com Deus e com o próximo.
C) Jesus Cristo, ao julgar o mundo por ocasião de sua volta, faz vir a lume o que é exigido plenamente na Palavra de Deus. Essa justiça é plenificada em Cristo Jesus.

2. O ASSENTO DIFERENCIAL SERÁ ENTRE OS QUE REALIZAM O BEM E OS QUE EXERCEM A NEGLIGÊNCIA À PALAVRA DE DEUS
A) Parece que hoje não há uma diferença. Entre as pessoas existe algo que tem uma predominância de desigualdade nos planos ético e moral, quando se pratica o pecado.
B) Mas, é preciso observar que o Evangelho de Mateus mostra que haverá uma separação. Será perceptível no “Grande julgamento”.
C) A norma que serve de base para o juízo é, concretamente, de caráter humanitário, mas junto existe um decisivo alcance cristológico. Ser negligente em realizar o bem em favor do mundo é não atender aos anseios da Salvação que o Senhor nos outorgou.

3. A DESTINAÇÃO ESCATOLÓGICA DAS PESSOAS TERÁ DOIS PÓLOS QUE INDICARÃO O INÍCIO DE UMA NOVA ETAPA
A) Todos terão uma destinação escatológica: daí a concretização do Julgamento de Jesus, o Filho do Homem. Os justos ouvirão a palavra do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do Reino que vos está preparado...” (Mt 25.34).
B) Os outros, os que estiverem à sua esquerda ouvirão também a voz do Senhor, dizendo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41).
C) O qualificativo de “justos” é aplicado aos salvos que fazem a vontade de Deus, servindo às pessoas mais desprezadas pela sociedade. Àqueles que sofrem.
D) O amor ao próximo é fundamental para que haja o desenvolvimento da nossa salvação। Jesus voltará. Amemos. Sirvamos de coração!
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[1] ROCHA, Nelson Celio de Mesquita. O grande julgamento. Rio de Janeiro: novembro de 2002/2007. Sermão do 34o Domingo do Tempo Comum.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

HORIZONTES RELIGIOSOS.
HAVERÁ DIÁLOGO?
Para uma experiência eclesial de vivência salvífica com outras tradições religiosas

Por: Dr. Nelson Célio de Mesquita Rocha

1. Um mundo plurireligioso
O quadro social em que estamos vivendo se apresenta de forma plural em muitos segmentos, principalmente o religioso.[1] Houve uma mudança de horizonte, surgindo, portanto, novos horizontes em termos de religião.[2] De uma sociedade tradicional onde tudo era determinado, onde havia uma identidade e os valores eram seguidos em todos os aspectos, passa-se rapidamente a uma situação de relatividade e de pluralidade.[3]
O que se denomina hoje de “Pós-modernidade”, entende-se como uma sociedade que segue a sua trajetória prescindindo de uma religião básica, envolvendo-se com tipos de religião que consigam gerar bem-estar e um certo tipo de prosperidade que englobe todos os sentidos para os estados emocional e físico melhores. Há uma desagregação da sociedade, dos costumes, do indivíduo.[4] O indivíduo escolhe o que seguir, sem considerar uma tradição.[5]
A sociedade pós-moderna é pluralista.[6] Há a secularização de vários setores da sociedade, dentre os quais está incluída a religião. Cada setor tem a sua relacionalidade própria. Assim, a religião não dá mais as coordenadas, porque passou a ser algo privado. Cada religião tem o seu “produto”, que é oferecido a todos, gerando uma concorrência. Qual é a melhor? A que oferece o seu produto de maneira mais eficaz? Isso atinge o indivíduo, formando-o de um pouco de tudo. [7]
Numa sociedade pluralista quem dá as coordenadas é o fator econômico; que tem a hegemonia. A pessoa passa a ser vista não pelo o que é, mas pelo que produz e também pelo que consome. Existe o efeito desestruturador, produzido pelo fator econômico. O sentido não está embutido na sociedade, mas naquilo que o indivíduo produz. Se aceita tudo, qualquer ideologia. Cada um segue a sua própria ideologia.[8]
Dentro deste quadro, onde prevalecem horizontes em termos de religiões, o que fazer? Qual a postura de engajamento da Igreja? Como ela tem a sua participação no meio dessa pluralidade religiosa, onde existe um desenvolvimento do individualismo e onde a salvação está à venda?

2. A salvação como um produto à venda?
O ser humano segundo a antropologia cristã foi criado para a salvação. Mas é preciso entender o que significa “salvação”. As religiões da sociedade pluralista falam de salvação ou de salvações? O que significa a salvação para os cristãos e para os adeptos de outras tradições religiosas? [9]
Há na sociedade hodierna o atrativo pelas religiões orientais e a persistência dos cultos afros no Brasil, apesar de tudo o que foi feito para destruí-los, devendo haver uma postura de um entendimento que propõe uma incidência salvífica.[10] Diante da insistência, como relacionar a confissão cristã de salvação em Jesus Cristo com outras tradições religiosas?
A experiências salvíficas em termos de religiões são diversas. Por exemplo: o hinduísmo, termo coletivo para crenças plurais na Índia, parte do mal e do sofrimento para apresentar sua ação salvífica. É preciso desenvolver o karma bom e chegar e chegar a suprimir os desejos e apegos, através de ascese, meditação, atos de culto, ajuda aos outros e conhecimento adequado. Já o budismo não implica a idéia de Deus, de alma imortal, de condenação ou de salvação eternas; também prescinde de atos de culto. O importante é a meditação para se encontrar o caminho da libertação definitiva do ciclo das existências dolorosas, que se dá pela cessação dos desejos no nirvana, estado que se conhece por experiência. Quanto no islamismo, os seus adeptos têm de viver reconhecendo e deixando-se guiar pelo único Deus, prescindindo de um mediador salvífico.[11] Na religião africana se apresenta o mundo invisível numa unidade, no qual o elemento forte é a “foca vital” e o objetivo salvífico a vida em toda a sua amplitude. Desenvolve-se a fertilidade, a solidariedade clânica e o respeito à natureza.[12]
O cristianismo ensina que Jesus Cristo é o mediador da criação e da salvação. A Cristologia como mediação original: Jesus Cristo é o mediador da obra da Criação, segundo o Novo Testamento: Col 1.16ss; Ef 1.3ss; 2.10; Hb 1.2; Jo 1.3. A dinâmica da Criação é o lugar da Cristologia. Cristo, a face humana de Deus; a imagem perfeita de Deus. Deus interroga, interpela e convoca o homem ao mesmo processo dinâmico, dentro da própria Criação. Jesus é o mediador da experiência da salvação de Deus.[13] Ele é o objeto da experiência da salvação e a medição histórica ou o símbolo sacramental dessa experiência.[14] Mesmo que esta proposição cause alguns questionamentos, é preciso entender que Jesus Cristo é Deus em carne e osso, atuando na história humana, não como símbolo, mas como Deus mesmo. Ele nos ensinou quem é Deus e como nos relacionar com Ele.
Roger Haigth propõe um método para se interpretar Jesus como Salvador hoje.[15] O método tem como base os seguintes pressupostos: uma análise histórica dos textos e práxis do passado devendo haver uma correlação no sentido da questão religiosa hoje, com uma postura dialogal. Portanto, três momentos: 1) Crítica histórica do passado dos textos; 2) A grandeza fenomenológica da experiência; 3) Uma visão ampliada do texto. Considera também para uma interpretação da história da soteriologia, os autores clássicos e os dois representantes da Reforma do Séc. XVI. Tudo isso para se verificar que a salvação é inseparável da criação, matéria tratada nos clássicos e nos reformadores. A salvação não pode ser entendida hoje como merecimento de uma promessa para o futuro ou como uma exclusividade de uma realidade futura. Ela pode ser experimentada agora, de forma concreta, histórica, sendo que a existência salvífica está dentro de uma cultura que tem de estar ciente do pluralismo e de falsas promessas.[16]
Jesus Cristo é o sentido último da história, a revelação definitiva de Deus e salvador único e universal.[17] Os cristãos confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Ele é o único Salvador. Deus se fez conhecido na humanidade de seu Filho. Assim a mensagem evangélica é endereçada a toda a humanidade. Esta é a perspectiva bíblica: a escolha de Deus, Jesus de Nazaré, vindo ao mundo no tempo determinado.[18] A fé cristã afirma ser Jesus Cristo não apenas mediação manifestativa, mas, sobretudo constitutiva da salvação. Ele é o salvador único e universal.[19]
A salvação é de Deus e tem por fim alcançar o ser humano em toda a sua dimensão. Acontece o encontro do humano com Deus, através de Cristo. É dom de Deus que não se apresenta como um produto entre os demais na sociedade pluralista.

3. A busca por um novo paradigma [20]
Autores que tratam do pluralismo das religiões, no entender de Amaladoss, estão acostumados a classificar os teólogos em exclusivistas, inclusivistas e pluralistas.
A) Exclusivistas – São os que confessam a Jesus Cristo como o único salvador, e a Igreja é o único caminho que proclama essa salvação. As outras religiões são frutos da reflexão humana, mas não são mediações para a salvação.
B) Inclusivistas – Aceitam que há a graça e a revelação de Deus em outras religiões. As religiões têm uma medição de Salvação, mas somente essa mediação tem que ser em Jesus Cristo. Existe o “Cristão Anônimo”.[21] Esse tipo de cristão se dirige apenas por uma caminho proclamado pela Igreja. Assim, Jesus Cristo é o centro da história da salvação.
C) Pluralistas – Afirmam que todas as religiões são caminhos de salvação. Como Cristo é um caminho de salvação, da mesma forma Buda é o salvador dos budistas. Krishna é o salvador dos hindus, e, assim sucessivamente. O teocentrismo se opõe ao cristianismo nessa visão.
M. Amaladoss descobriu que esses três paradigmas são insatisfatórios.[22] O Exclusivismo nega as outras religiões; o inclusivismo aceita a possibilidade de salvação em outros povos fora da Igreja, mas que têm de passar por Jesus Cristo; o pluralismo afirma que há vários caminhos de salvação.
A posição inclusivista tenta manter uma comunhão com outras tradições religiosas, mas o eclesiocentrismo é um problema. Afirma que o “Cristão Anônimo” não professa a sua fé na Igreja ou a fé em Jesus Cristo. Estão fora do ambiente da Igreja e têm elementos cristãos em sua consciência. As outras religiões são, respectivamente, colocadas na relação linear com o Cristianismo. Esta é a priori a solução do problema.
Quanto à posição pluralista, Jesus Cristo é apenas um entre os outros salvadores. Para esses pluralistas, Jesus é o “Mito do Deus encarnado”, sendo esta a posição de J. Hick, teólogo pluralista americano.[23]

3.1. Uma estrutura metodológica
É preciso levar em consideração o contexto da discussão que é a comunidade de pessoas vivendo e trabalhando juntas, compartilhando a comunhão. Um contexto de cultura e vida sócio-política estruturada, mas pertencendo a várias religiões diferentes. É de grande importância estabelecer o diálogo, no sentido de se desenvolver uma força política, no sentido de se promover a liberdade e a luta pelos direitos humanos, que é um dever de todos os membros da raça humana.
Nesse diálogo as pessoas podem se aproximar umas das outras e ouvir suas crenças, que podem promover edificação. Esse horizonte dessa busca para um entendimento se traduz por uma questão de perspectiva de fé. Nesse horizonte, a fé cristã pode ouvir outros “povos de fé”. Não se trata de uma busca abstrata e nem racional-científica, no sentido de uma unificação de todas as religiões, mas apenas poder dialogar e ouvir o que os outros têm a dizer. Se o cristianismo é uma religião que tem uma pretensão de dar uma palavra sobre a realidade, confessando que Deus é o criador de toda a realidade, como pode não se importar com a mesma?

3.2. Elementos de um Novo Paradigma [24]

3.2.1. Relação e estrutura
A religião é basicamente a salvação da relação entre Deus e o ser humano. No contexto humano de vida em comunidade, Deus chama e a pessoa responde. Assim, consciência e liberdade têm o ponto essencial nesse processo. Deus para nós é Pai, Filho e Espírito. Contudo, esta pluralidade em Deus deve ser entendida como a pluralidade pessoal de relações com Deus.
A salvação da relação entre Deus e o ser humano é vivida no contexto da cultura e da história. Não é uma experiência de abstração, mas se pode viver de tal forma que o que o que se expressa em palavras, se vive na prática. Isso é o amor em sua expressão concreta. Essa relação pessoal é uma forma de se voltar para o Absoluto. O absoluto e o relativo são dois pólos de uma relação, assim como o espírito e o corpo. Esse absoluto é Deus e o relativo é o ser humano. Muitas pessoas lêem a Bíblia e podem reconhecer Jesus como um grande homem que ensinou e deu o exemplo universal de relação com Deus e com as pessoas. Mas os cristãos em sua fé confessam a Jesus como a Palavra Encarnada.
O ponto estrutural dessa relação não é uma comparação entre as diversas religiões, mas a construção de um diálogo entre as diversas crenças.

3.2.2. É Deus quem salva
É muito importante saber que Deus é quem salva, e não as religiões. As religiões são mediações que não substituem a presença do amor salvador de Deus. A fé é quem salva e não a religião.
Uma perspectiva histórica deve produzir uma unificação que tem a sua dimensão realizada pelo Espírito de Deus. Assim, o diálogo deve fazer parte da missão da Igreja no mundo plurireligioso. Deus está sempre presente e ativo na criação e na história. Sua presença é percebida em várias manifestações que são ordenadas para a unidade. Deus manifesta seu ser em vários caminhos para várias pessoas e grupos em sua soberana liberdade. Estas manifestações não são arbitrárias, mas ordenadas para o plano global de Deus para a humanidade. Não se traduz numa religião fechada em seu ser, mas sempre chamada para estar aberta em sua estrutura de acolhimento.[25]

3.2.3. Jesus é o Cristo [26]
Um dos problemas que temos quando falamos de Jesus Cristo no contexto de outras religiões é o reducionismo. O Concílio de Calcedônia definiu que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem e que estes dois aspectos não devem ser entendidos como uma separação. É fundamental saber quem é Cristo para nós. Quem é Cristo para nós? De quem se fala? Da palavra em quem foram criadas todas as coisas ou de Jesus, a palavra encarnada?
Cristo ou Jesus? O divino e o humano estão separados? Jesus é o Cristo, mas o Cristo não é somente Jesus. O Jesus da história é limitado pela sua humanidade, cultura e história. Esta foi a sua escolha. Foi em Jesus que a ação de Deus o Pai, Filho e Espírito se manifestou. Quando falamos da universalidade de Cristo, temos que tomar em conta o alcance cósmico da ação de Deus e não limitar sua ação em sua encarnação em Jesus.
Esta ação universal de Cristo não é localizada num ponto de tempo na história, porque será completa no último dia quando Cristo será tudo em todos. A universalidade de Cristo inclui toda a manifestação de Deus na história.
Nossa perspectiva aqui dependerá de como vemos a história em relação à eternidade. Eternidade e contemporaneidade com o tempo. Quando falamos do divino não falamos do “antes” e do “depois”. Quando se afirma que Cristo salva, tem uma universal ressonância. A ação transcende o tempo, não existe o “antes” e o “depois”. Não podemos separar eternidade e história. Esta eterna-história dinâmica é a verdade de todas as ações divinas, mas é particularidade somente da ação de Deus em Jesus. Esta universal ação de Deus em Cristo é realizada no tempo através da história, dinâmica e progressão de ações que constituem a estrutura. As concretas ações têm um significado universal e relevância como partes de sua estrutura.
Para voltar à antiga formulação: Jesus é o Cristo, mas Cristo é mais que Jesus. É preciso considerar o mistério de Cristo que inclui todas as outras manifestações de Deus na história. Pode-se descobrir que há salvação do outro lado da Igreja que confessa a fé em Jesus como o Cristo. Cristo é universal porque o Espírito é universal. Ele agiu em Jesus. No batismo o Espírito desceu sobre Jesus. Ele está presente e ativo em toda parte. Para o cristão, o que é especial sobre Jesus é que em seu mistério pascal Deus tem manifestado ao mundo o seu amor, ao se revelar às pessoas. A Igreja é serva do mistério e vive o mistério como foi manifestado em Jesus.
3.2.4. Uma Igreja serva [27]
Parte do problema sobre as questões que discutimos concernentes à universalidade de Cristo é a imagem da Igreja que temos. A Igreja é a instituição visível que é criada de formas ritual e organizacional. É neste sentido que podemos vê-la como uma religião entre outras. Mas algumas vezes também, pensamos sobre a Igreja como um mistério, o mistério do corpo místico de Cristo, que inclui todos os que são salvos. Se considerarmos a Igreja como uma religião, não podemos atribuir a ela única e universalmente o que atribuímos a Cristo. A Igreja é limitada cultural e historicamente, ela é peregrina, daí considerar que há salvação fora da Igreja.
Freqüentemente, temos uma imagem da salvação histórica como a realizada dentro da Igreja. Mas é preciso entender que a imagem que a Igreja deve ter é a de serva, que proclama o mistério do Reino de Deus, não se considerando triunfalista. O seu serviço é precisamente o de ajudar e unificar o humano e promover uma comunidade humana de diálogo e colaboração. O caminho concreto em que a transformação e unificação tomarão os seus lugares é um mistério que é conhecer a Deus unicamente. Todos podemos fazer completamente as nossas ações, não somente fundamentados no mistério do amor de Deus, mas de seu auto sacrifício manifestado em Jesus. O meio da salvação está na liberdade e na generosidade de Deus.

3.2.5. Uma visão da história
Uma visão linear da história. Há uma tensão na descontinuidade entre natureza e graça, entre o antes e o depois de Cristo. As outras religiões são o outro lado da história da salvação. A eleição de um povo ou de uma pessoa não é exclusiva, mas sacramental e simbólica. A atividade cósmica do mundo e o Espírito são afirmadas pela Palavra e o Novo Testamento precisamente tem como base a ação salvadora através da experiência particular de Deus, agindo na pessoa e na vida do povo. A visão alternada de uma salvação no plano de Deus abarca o mundo e todas as pessoas. Isto inclui a sensibilidade de como é a história. Há um ponto interativo de Deus, entre a sua liberdade e o ser humano; entre o chamado e resposta.
Eleição, representação, solidariedade e missão são criativa e estruturalmente elementos desta história. Esse relacionamento entre Deus e o humano são jogados no contexto das culturas e das tradições. Ambos, liberdade e cultura são fatores do pluralismo. Mas este pluralismo é integrado com o plano que Deus tem para o mundo. A unidade do plano de Deus é uma unidade de relação, juntamente de identidade, não de uma simples pluralidade.
O plano de Deus para o mundo é uma rede de relações. O que podemos fazer nesta situação é afirmar e viver nossa identidade, exercitando uma relação de diálogo com outros. No ouvir os outros, deve-se discernir juntos qual caminho progressivamente descobrir no plano de Deus no curso da história.
Nós experimentamos em nosso diálogo com outros que Deus tem também sido ativo para com eles. Nós cremos que haverá a transformação e unificação de todas as coisas em novo céu e nova terra, quando Deus será tudo em todos (1 Coríntios 15.28). Com esta esperança nós entramos com as relações, construindo o novo céu e a nova terra. [28]

3.3. O significado de Cristo [29]
Deus é realmente o Salvador de todas as pessoas. Ele não é o Deus de um povo particular. Sua ação não é limitada a um particular histórico e tradição cultural. Cristo tem rompido com todos os elementos que dividem. Reconhecemos Cristo em Jesus, vimos com o Novo Testamento, particularmente com João e Paulo, que Cristo e seu Espírito são ativos em toda parte. Nós ouvimos a expressão de outros, que é também nosso privilégio ativamente e parte da nossa experiência do mistério de Cristo em Jesus e sua relevância contemporânea do mundo.
Devemos resistir à tentação de reduzir a universalidade de Cristo à universalidade visível, da Igreja institucional. Deve-se dizer que as limitações da Igreja na cultura e na história tomam lugar de outras religiões no plano de Deus para o mundo, justamente contemplando a Jesus que agiu sob a direção do Espírito, segundo as reflexões do Evangelho de João.
Tem que haver um lugar entre o Inclusivismo e o pluralismo. O pluralismo está preparado para suportar as experiências de existir com outras religiões. Está estruturado dentro de uma unidade. Todas as crenças crêem em Deus, e porque elas crêem que Deus é um e terão que afirmar isso. Mas essa unidade é escatológica. Mas, antes é preciso passar pelo diálogo na história.
A meta da missão é fazer nossa contribuição para a realização do plano de Deus para o mundo. Isto requer ouvir os outros, ler os sinais dos tempos, construir uma comunidade que promova a liberdade, unida e justa na esperança. Para proclamar a salvação universal de Deus em Cristo, não é falar sobre ela, mas fazer em alegria. Nós devemos também proclamar-realizar as Boas Novas de Jesus. Jesus envolveu-se particularmente com a vida do pobre. Ele optou pelo pobre e oprimido. Ele escolheu o caminho da cruz, da total ser-entrega, até à morte. Ele foi solidário com o povo, particularmente no sofrimento. Cristo identificou-se com o sofrimento da humanidade. Assim, a Igreja deve estar aberta ao mundo e ao mistério de Deus, identificando-se e propagando a mensagem do Reino de Deus.

4. A experiência que o ser humano faz da salvação [30]
A salvação é Deus. Diante desta afirmativa se pode refletir na dimensão transcendente. Deus atinge o ser humano de forma integral em seu contexto, que é a dimensão imanente. Sendo desta forma, há expressões múltiplas a partir da salvação realizada por Deus vindo ao encontro do ser humano. Logo, não se tem um conceito de salvação? É preciso entender que os contextos mudam constantemente.
As outras religiões ao trazer o conceito de salvação não só a oferecem, mas fazem que a pessoa tenha algo concreto. O intuito é “fazer bem”. Perscrutar acerca da certa afirmação que faz ecoar, que as religiões não têm nada de bom, passa a ser uma afirmação fora de contexto. Uma pergunta que se faz é se as salvações das religiões são de Deus? Será que as experiências são feitas em Deus? Todo o problema da religião é sair de si mesmo e encontrar o outro. A Realidade Última. Se não sabe quem é Deus, concomitantemente, há a necessidade de se refazer certa postura.
Por outro lado, prescindir das religiões, por si afirmar que é Deus quem salva, não havendo necessidade de religiões, isso é inaceitável. O objetivo das religiões é oferecer salvação. Dar respostas às questões cruciais, que as ciências não podem dar, como por exemplo, o sentido da morte. Daí a necessidade de uma reflexão teológica.
O que diz a teologia? Tem a Teologia uma palavra sobre as outras tradições religiosas ou todas elas e seus adeptos estão no inferno? Têm elas algo de bom ou somente aquilo que é do diabo?

5. A Palavra da Teologia [31]
A ação do Espírito Santo universaliza a salvação. Esta ação é percebida no Novo Testamento (Atos 10). Uma ação universal, mas também cristofórmica. O Espírito nos faz filhos e filhas do Pai. Toda ação do Espírito é nos levar a fazer o que Jesus fez. Esta ação do Espírito Santo é experimentada. Esta ação se estende também para outras religiões, o que não é nada fácil para o cristianismo aceitar, mas que deve assumir uma postura de humildade.
A questão do pecado perpassa a todas as religiões, inclusive o cristianismo, pois o próprio tem muitas coisas que não são de Deus. Por exemplo: a questão do poder da própria Igreja, a vaidade e outros afins. Encontramos na história múltiplas expressões marcadas pelo pecado, pelo egoísmo. Assim, as religiões não são perfeitas. Logo, reflete-se que, todas as tradições precisam de aperfeiçoamento, e, concomitantemente, o cristianismo também precisa. Desta maneira, receber de outras religiões influências, podem ser ferramentas, a fim de que se perceba aquilo que se deve ver e não se vê.
É algo estranho afirmar que o conhecimento de Deus pode ser aperfeiçoado pelo contato com outras religiões, mas isto é algo que os cristãos precisam rever. Se Deus permite a existência de outras religiões, o que ele quer dizer com isto? Esta é uma pergunta teológica.[32] Também, há algo de verdadeiro nas outras religiões? Tem consistência o sistema de uma determinada religião? Quando todas afirmam que vem de Deus, é preciso verificar se isso é verdadeiro, porque Deu age onde quer pelo seu Espírito Santo.
A Filosofia ensina que o ser humano é um ser aberto à transcendência. Ele sempre quer mais; ele não se contenta com o finito. A fé é o dom que nomeia o transcendente e desta maneira se pode entrar numa definição teológica. Logo, é fundamental observar as diversas leituras sobre a verdade em outras religiões, sem perder de vista a identidade cristã.
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[1] AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 401-420.
[2] MIRANDA, M. F. Cristianismo e Religiões. Apontamentos da Disciplina ministrada no Curso de Doutorado em Teologia Sistemática. Rio de Janeiro, 13.03.2003. Sobre este assunto, o mesmo autor trata em sua obra “O Cristianismo em face das religiões”, São Paulo: Loyola, 1998, faz uma análise da situação de forma acurada, e propõe uma Teologia das Religiões.
[3] Ibidem. Apontamentos de 13.03.2003.
[4] LIPOVETSKY, G. A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo, p. 7.
[5] BERGER, P. L. The heretical imperative. New York, 1980, p. 1-29.
[6] MIRANDA, M. F. Verdade cristã e pluralismo religioso. Rio de Janeiro: 2003, p. 1-2.
[7] MIRANDA, M. F. Apontamentos, 13.03.2003.
[8] MIRANDA, M. F. Apontamentos da aula do dia 20.03.2003, com fundamento em LIPOVETSKY, G. A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo, p. 1-16.
[9] MIRANDA, M. F. O Cristianismo em face das religiões, p. 73-104. O autor trata deste assunto com muita precisão.
[10] Ibidem, p. 75.
[11] Ibidem, p. 88-90. O autor de formas sintética e objetiva apresenta esse quadro soteriológico de algumas das grandes religiões.
[12] Ibidem, p. 88-90.
[13] HAIGHT, R. Jesus and Salvation: na essay in interpretation. Theological Studies, 55, 1994. p. 227-229.
[14] Ibidem, p. 228.
[15] Ibidem, p. 232-235.
[16] Ibidem, p. 244.
[17] Verificar as obras de MIRANDA, M. F. O Cristianismo em face das Religiões, (p. 35-71) e SCHILLEBEECKX, E. Universalité unique d’une figure religieuse historique nommée Jésus de Nazareth (265-281).
[18] SCHILLEBEECKX, E. Universalité unique d’une figure religieuse historique nommée Jésus de Nazareth 265-267. Nas páginas 269-281, o autor propõe oito teses concernentes acerca da identidade e universalidade de Jesus.
[19] MIRANDA, M. F. O Cristianismo em face das Religiões, p.28.
[20] Acho interessante a proposta de AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 402-420.
[21] RAHNER, K. El cristianismo y las religions no cristianas. Escritos de Teologia V. P. 152-154. Esta é uma das teses defendidas pelo autor, em que consiste da graça consciente está presente antes da palavra missionária chegar a algum lugar. O “Cristão Anônimo" é aquele quem antes de chegar a pregação da Igreja, ele já possui a salvação de Cristo, mediante a graça divina.
[22] AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 402-404.
[23] HICK, J. The Myth of God Incarnate. London, SCM, 1977: In: AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 403. Esta obra de J. Hick encontra-se traduzida para o português “A metáfora do Deus encarnado”, pela Vozes, 2000. 230p.
[24] AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 404-405.
[25] Ibidem, p. 408-410.
[26] Ibidem, P. 410-414.
[27] AMALADOSS, M. The Pluralism of Religions and the Significance of Christ. Vidyajyoti Journal Theological Reflection. Vol. LIII, august, 1989, No 8. P. 414-416.
[28] Ibidem, p. 416-417.
[29] Ibidem, p. 417-419.
[30] MIRANDA, M. F. Apontamentos da aula do dia 22.05.3003. Rio de Janeiro: PUC.
[31] MIRANDA, M. F. Apontamentos da aula do dia 22.05.3003. Rio de Janeiro: PUC.
[32] Ibidem, 29.05.2003.

sábado, 17 de novembro de 2007

Servir a Deus por Amor

Servir a Deus por Amor [1]
Texto Bíblico: Deuteronômio 15.12-18

Introdução
· Uma das características mais apreciáveis na existência humana é a disposição que pessoas têm para servir. Quando aparece uma pessoa bem disposta para servir, todos ficamos admirados.
· A capacidade para servir enobrece o ser e constrói caminhos de vida que conduzem ao êxito.

Explicação
· O texto da Bíblia que temos em mãos apresenta um ensino de alta qualidade acerca do ato de servir.
· O escravo hebreu ou a escrava hebréia que servisse a outro hebreu, só podia servir apenas por seis anos. A liberdade devia ser concedida no sétimo ano. Ao fim dos seis anos ele ou ela deveria ser liberto ou liberta e despedidos com doações generosas, que lhes permitissem começar uma nova vida.
· Ao observarem essa lei, os hebreus se lembrariam do tempo de escravidão no Egito e abundante provisão de que desfrutaram ao saírem daquela terra.
· Mas havia a opção de escolha dada ao servo ou a serva. Se por alguma razão quisessem continuar no serviço de seu senhor, era possível fazê-lo pelo resto da vida.
· Muitos não queriam sair, e preferiam continuar servindo ao seu senhor. Ele ou ela poderia dizer: “Não quero ir embora. Vocês são minha família. Eu os amo. Quero ficar e ser um servo”.
· O que fazer diante dessa escolha? O seu senhor o levava à porta da casa; com uma das mãos puxava a orelha do servo ou da serva até encostá-la na parede, e em seguida furava-se com uma sovela pontiaguda.
· Ninguém estranhava tal procedimento, pois era parte da vida do hebreu do tempo bíblico. Terminada a cerimônia o servo era desprendido e tornava-se um “servo por amor”. Trazia em si a marca da obediência ao seu senhor.

Servir a Deus por Amor:

1. É a percepção mais alta da vida cristã
A) A vida cristã é vida de serviço a Deus; de reconhecimento de todas as suas maravilhas.
B) Uma vida que serve a Deus se torna sensível à voz do Senhor; está sempre disposta a obedecer à Palavra da vida.
C) Uma pessoa obediente a Deus não teme as dificuldades, porque elas se transformam em desafios.

2. É a decisão de quem um dia também foi escravo
A) Os hebreus não deviam esquecer de que foram escravos no Egito, e o Senhor os libertou e providenciou tudo para eles.
B) Quem de nós seres humanos nunca foi escravo de alguma coisa ou de alguém?
C) Somente em Deus a vida tem valor, por isso ele um dia nos libertou de alguma escravidão.
D) É Jesus Cristo o grande libertador, por causa dele tomamos as decisões certas na vida.

3. É a marca de um coração sempre agradecido
A) A gratidão é atitude de quem foi liberto por Deus. É gesto de nobreza, de reconhecimento de Deus como o Sublime da vida.
B) Servir a Deus desdobra-se no cotidiano do mundo, mesmo com seus enigmas.
C) Servir a Deus como Jesus serviu e deu a sua vida pelos outros (Fp 2.6-11).
D) Servir a Deus é a marca que trazemos hoje no corpo e alma.
E) Quanto mais servimos Deus, mais nos tornamos nobres.

CONCLUSÃO
· É isso mesmo o que todos devemos fazer: Servir por Amor. Trazer essa marca em nossa existência.
· Ficarmos marcados na história como alguém que andou com Deus; que serviu a Deus servindo as pessoas.
[1] ROCHA, Nelson Celio de Mesquita. Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2007.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

“E O VERBO SE FEZ CARNE”

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai” (João 1.14)

O título em epígrafe mostra que a Palavra de Deus se cumpriu na história através do nascimento de Jesus Cristo, pois segundo as profecias do Antigo Testamento haveria de vir o que restauraria o ser humano de forma integral, no sentido fazê-lo um comprometido com os valores do Criador. Essa Palavra empenhada e prometida, tomou forma, se concretizou na história dos mortais. É o que ensina o Evangelho de João e todas as escrituras do Novo Testamento.
Não obstante, um movimento contrário surgiu na história da Igreja para tentar esvaziar essa verdade, o gnosticismo, que é descrito pelos historiadores e teólogos como uma descrição geral de uma série de escolas heréticas que ameaçaram a Igreja, principalmente no século II. Ensinava que a salvação só era encontrada através da gnose, que era um certo conhecimento filosófico. Algo voltado para o ego. Para o movimento havia a existência de dois deuses: o deus do bem e o deus do mal. O primeiro, criou o mundo espiritual; já o segundo, criou a matéria. Logo, era impossível o espírito encarnar-se na matéria, pois esta era a prisão do espírito. Assim, negava a humanidade de Jesus. Para os seus seguidores, o Verbo não se fez carne; não se materializou. Um Deus criador do bem não podia se comprometer com este mundo criado pelo deus do mal (demiurgo).
Mas temos que ficar com a Palavra inspirada de Deus. Ela afirma que o Verbo se fez carne. “Verbo” é a palavra traduzida do grego logos, a sabedoria de um Deus pessoal, que veio ao encontro da humanidade que estava sem direção para dar-lhe sentido pleno. O Deus que criou o ser humano e tudo o que há na natureza, é o Deus que se relaciona, que interage. Assim, como Ministro da criação e do governo do universo, desceu da sua glória e veio ao encontro dos mortais pecadores em Jesus de Nazaré. Isso se constituiu loucura para os gregos e escândalo para a nação judaica (I Coríntios 1.23).
A palavra “carne” traduzida do grego sarx, tem um significado de que Jesus se tornou com um de nós. O que era impossível, Deus tornou possível: a salvação ou a libertação do pecado. Em Mateus 1.21 está escrito que a “virgem dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.” Assim, o tempo da verdadeira liberdade se cumpriu. Paulo, o apóstolo, escreve em Gálatas 4.4 sobre a “Plenitude do tempo”, sobre a vinda do Filho de Deus, para pôr fim a tudo o que oprime e causa dor.
A revista Isto É, de 20 de dezembro de 2000, dedicou 28 páginas sobre os 2000 anos de cristianismo, onde há relatos importantes sobre a vida de Jesus Cristo. Nas páginas 56 e 57 consta um título “A Divindade feito homem”, o que acentua a verdade da ação de Deus na história humana e o testemunho do que Deus em Cristo tem feito pelo ser humano, obra prima da criação.
É Natal. É tempo de alegria. Não aquela alegria passageira, mas a que permanece nos corações transformados pela graça divina. As comemorações na Igreja, na família, nas instituições e nas ruas devem ter uma caráter todo especial: a festa é para aquele que veio ao nosso encontro para nos dar a verdadeira vida, porque devemos crer que Ele se fez carne e habitou entre nós.

Rev. Nelson Célio de Mesquita Rocha
TEMA: VIRTUDES E PRÁTICAS DA IGREJA DE CRISTO
Texto Bíblico: Romanos 12.9-21

INTRODUÇÃO
A Igreja é o Corpo de Cristo. É composta de todos os remidos pelo sangue do Cordeiro. Logo, deve a Igreja agir condignamente, através da sua própria razão e natureza, de ser e de existir no mundo, com suas virtudes e práticas, fundamentadas na Palavra de Deus.
A Igreja forma o povo de Deus na terra e tem por objetivo edificar a vida das pessoas de todos os lugares e de todos os tempos, sendo instrumento de Deus.

EXPLICAÇÃO
O texto bíblico da Epístola de Paulo aos Romanos, apresenta o quadro de uma Igreja que deve desenvolver as virtudes e práticas ensinadas por Deus em sua Palavra.
Há qualidades que o povo de Deus deve trazer em seu bojo, obedecendo aos parâmetros da única regra de fé e prática que é a sacrossanta Palavra de Deus, e portanto, causará, sem dúvidas, impacto profundo na sociedade.
O apóstolo Paulo ao registrar a Sabedoria do Espírito Santo, veementemente expõe com precisão “Qualidades do caráter da Igreja”, para que a mesma possa crescer em graça diante de Deus e dos homens.

Vejamos o que é necessário, segundo o ensino bíblico, para que a Igreja cresça e se torne uma bênção para o Reino de Deus:

1 – A PRÁTICA DO AMOR SEM HIPOCRISIA (9, 10)
• Deus não quer um amor falso, hipócrita. O amor deve ser praticado em favor do próximo, do contrário Deus não pode aceitar qualquer ato, mesmo que seja em nome do amor.

2 – O APEGO AO BEM REPUDIANDO O MAL (9)
• É preciso detestar o mal sob quaisquer pretextos. O contrário da prática cotidiana é o apego ao bem, que é Deus e sua Palavra.

3 – O FERVOR ESPIRITUAL NO SERVIÇO DO SENHOR (11)
• Nós não devemos ser remissos (relaxados) no serviço do Senhor, pois ele fez tudo para tivéssemos o melhor: a salvação, “Fervor espiritual” é o zelo que temos para como o serviço de Deus.

4. - A PRÁTICA DA ESPERANÇA COM ALEGRIA (12)
• “Regozijai-vos na esperança” é a ordem da Palavra de Deus. Deus não quer que tenhamos uma esperança em reclamação, duvidando do seu poder.

5 – O EXERCÍCIO DA PACIÊNCIA NA TRIBULAÇÃO (12)
• Às vezes é difícil suportar as tribulações, mas é preciso confiar na graça divina. O Senhor é quem nos dá o escape. As tribulações não são maiores que o nosso Deus.

6 – A PRÁTICA DA ORAÇÃO PERSEVERANTE (12)
• É preciso orar sempre e nunca esmorecer. Muito pode a oração do justo.

7 – A ASSISTÊNCIA SOCIAL E A HOSPITALIDADE (13)
• “Compartilhar a necessidade dos santos” é poder ajudar as pessoas que precisam. A hospitalidade é o acolhimento que os santos dão às pessoas que passam por dificuldades.

8 – A PRÁTICA DE ABENÇOAR E NÃO AMALDIÇOAR (14)
• É muito fácil dizer palavras ruins quando alguém nos perturba. Logo, procuramos xingar ao invés de entrega nas mãos de Deus as nossas palavras.

9 – A INTERAÇÃO E A SIMPATIA COM OS QUE SOFREM (15)
• “Alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram”, faz parte da missão do Filho de Deus, quando esteve entre as pessoas.

10 – O EXERCÍCIO DA HUMILDADE (16)
• Ser humilde é viver como Jesus viveu. É preciso considerar o valor que os outros têm, reconhecendo as suas virtudes, pois todos são importantes.

11 – O VIVER EM PAZ COM TODAS AS PESSOAS (18)
• A Paz é um dos grandes temas do Reino de Deus. Faz parte do projeto de Jesus Cristo. “Se possível, quanto depender de vós...” Todo o esforço para a paz.

12 – A AUSÊNCIA DE VINGANÇA (19, 20)
• Deus é Deus de justiça, por isso nada de vingança. A vingança é a paga do mal pelo mal.

13 – TRIUNFAR SOBRE O MAL ATRAVÉS DO BEM (21)
• O mal não tem mais força que o Sumo Bem que é Deus, o nosso amigo. Onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus.

IGREJA REFORMADA E VISÃO MISSIONÁRIA

Por: Rev. Dr. Nelson Célio de Mesquita Rocha

A missão da verdadeira Igreja de Cristo Jesus é mais do que proceder caridosamente. É participar da reconstrução do mundo, como Jesus procedeu. É reintegrar de modo pleno o homem no Reino de Deus. Não utilizar somente a Palavra como teoria, mas na prática mostrar a operosidade que procede de Deus. “MENOS CARIDADE E MAIS JUSTIÇA”, escreveu alguém no muro de uma rua de uma certa cidade. A Igreja precisa estar atenta às carências das pessoas, e oferecer-lhes o conforto de que tanto precisam.

1. Permanecendo na cidade até quando?
Em Lucas 24.49 está registrada uma ordem de Jesus dada aos seus discípulos para que permanecessem na cidade de Jerusalém. Mas, essa permanência seria por muito pouco tempo; não definitivamente. Eles não deveriam ficar acomodados, observando os acontecimentos sem uma ação dinâmica. Até quando deveriam permanecer em Jerusalém? “Até que sejais revestidos de poder (dínamis) do alto”. É lamentável que pessoas não entendam as palavras do Senhor, e permaneçam dentro de si mesmas, ou de suas paredes, ainda, das quatro paredes de um templo, a fim de não cumprirem a vontade de Jesus Cristo, como se de fato fosse assim mesmo: adoração sem compromisso com a missão de fazer discípulos de todas as nações.
O Espírito Santo foi enviado para capacitar a Igreja; dar-lhe poder para realizar-se como a missão confiada pelo Senhor, de ir por toda parte e proclamar as boas novas de salvação a todas as pessoas. Jesus prometeu enviar o Espírito: “da minha parte, eu vou enviar-vos o que meu Pai prometeu.”
A Igreja quando entende a sua missão acomodada na história, não se caracteriza e se realiza como povo de Deus. A Igreja que desejamos é aquela que descortina novos horizontes e encarna na existência humana o projeto de Jesus Cristo. A sua missão constitui a opção pelos pobres e marginalizados e por todas as pessoas a quem Deus enviar para receber a salvação, que é a reintegração total do ser humano. Aos ricos, à conversão, no sentido de haver partilha. Aos pobres, lutar por seus direitos em todos os sentidos. Tudo isso não condiz com o “permanecer na cidade”.

2. Recebendo o dínamis do Espírito Santo
Em Atos 2.1-13, ao cumprir-se o Dia de Pentecostes, Deus enviou o Seu Espírito para dinamizar a Sua Igreja. A promessa feita foi cumprida, porque o Deus que promete é o Deus que cumpre. Deus é fiel ao cumprimento de Sua Palavra. Ela não pode falhar.
No Antigo Testamento a palavra “ruah” é traduzida por vento, sopro, força de vida (Êxodo 15.8-10; Isaías 11.4; 40.7; Gênesis 2.7). Força misteriosa é a força de Yhwh. O Espírito de Deus é força de vida e criação (Gênesis 2.6; 6.2,17; 7.15,22). O Espírito como força psíquica operante (Juízes 13.25; 14.6; 14.19; 15.14, 3.10; 6.34; 11.29; 1 Samuel 11.6). Nestes textos constam que, homens realizaram obras extraordinárias, alcançaram vitórias inesperadas, sob o impacto do Espírito de Deus.
O Espírito de Deus se comunica constantemente ao povo através dos profetas (Zacarias 7.12; Isaías 48.16). O Espírito de Deus inspira transformação.
No Novo Testamento, o Espírito Santo é força, dínamis. É mais pessoal; é “alguém”. Nos evangelhos sinóticos, a exceção de Mateus 28.19, nenhuma dessas escrituras apresenta o Espírito Santo como pessoa, mas como força. Am Atos, o Espírito de Deus é concebido como força. A Igreja nasce por ocasião do Pentecostes. O Espírito de Deus dá coragem, força aos pregadores do Evangelho.
Não poderia ter havido um dia tão especial como foi o Dia de Pentecostes, para que a Igreja pudesse provar do dínamis de Deus, e apresentar os primeiros frutos: três mil batizados, após ouvirem o discurso de Pedro (Atos 2.14-41).
Quem recebe o dínamis de Deus, não o recebe para conforto de si mesmo, mas para realizar a vontade de Deus. Viver no Espírito é viver uma maneira nova. É uma nova criação que responde com um “sim responsável”.
A Igreja que desejamos é a Igreja que vive a liberdade do Espírito de Deus, sempre preparada para obedecer a todos os imperativos de Jesus em favor dos oprimidos e marginalizados pelo pecado. O pecado, a cada dia, execra a vida humana. Mas de modo novo, torna-se o que recebe a graça de Deus, sendo obediente dentro do Corpo de Cristo.

3. Obedecendo aos imperativos de Jesus Cristo
O próprio Jesus é a grande mensagem da Igreja. Ele é a salvação que se fez Pão; o Pão da Vida. Jesus não autorizou a nenhum de seus discípulos praticar a omissão. Em Romanos 1.16, Paulo diz o seguinte: “Pois não me envergonho do Evangelho: ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu primeiro, e depois do grego.” O Evangelho é o DÍNAMIS TOU THEOU (poder de Deus).
Fundamentada inteiramente no verdadeiro Amor (agápe), a Igreja deve estar. O Senhor ordenou a Sua Igreja, pelo menos três pontos fundamentais:

• Primeiro - Pregar as Boas Novas; evangelizar
A Igreja tem a missão de ser a voz de Deus no meio do povo. Neste mundo há corrupção, injustiça, pobreza, miséria, discriminação e muitos infortúnios.
No entanto, a Igreja, Povo de Deus, marca a sua presença na sociedade, sendo o “Sal da terra” e a “Luz do mundo” (Mateus 5.13,14). Ela tem de denunciar a injustiça, o analfabetismo, a doença, a falta de consciência política, o desamor e todos os pontos negativos que obstruem a vida. Os textos são bem claros sobre esses pontos (Mateus 28.18-20; Marcos 16.15-20; Lucas 10.1-11; Atos 1.8). Destarte, evangelizar não é uma opção.

• Segundo - “Batizando-os em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo”
O Batismo é desde o início da Igreja (1 Coríntios 12.13; 1.10-17; Romanos 6.3ss). Antes de o Cristianismo surgir, havia o batismo de prosélitos. Rito de iniciação, junto com a circuncisão para o ingresso no judaísmo, por causa das pessoas serem impuras. A pessoa tornava-se uma nova pessoa e se submetia a Torá (Lei). João Batista, através de sua experiência apela à conversão, numa tentativa de retomada à purificação. Convém lembrar que, João Batista batizou Jesus, com o sentido de entrar neste movimento do povo (Lucas 3.2ss). Os discípulos de Jesus também administravam o batismo (João 3.22; 4.2). A Igreja primitiva começou a batizar utilizando o referencial existente. Os batizados eram admitidos na Igreja como prova da Nova Vida em Cristo, onde não havia mais desigualdades nessa nova vida (Gálatas 3.28). Todos formavam uma unidade. É assim que a Igreja deve fazer também hoje.

Terceiro - A celebração da Eucaristia
Testemunhos da celebração eucarística: (1 Coríntios 11.23-25; Lucas 22.15-20; Marcos 14.22-25; Mateus 26.26-29; 54-56). Realidade e sentido da Ceia: Jesus, o anfitrião da Mesa. Ele é aquele que acolhe. As palavras do Senhor ressurreto foram entendidas pelos discípulos. Diante da Mesa do Senhor, os homens participam da realidade salvífica e da morte redentora de Jesus. A Santa Ceia possui um caráter profundamente teológico:

1. Tem perspectiva de passado: Em memória da morte de Jesus;
2. Tem perspectiva de presença: refeição da aliança e comunhão entre os cristãos;

3. Tem perspectiva de futuro: a plena comunhão do Senhor com todos.

A Igreja que desejamos é esta: sempre obediente a Jesus Cristo, o Senhor, em todos os aspectos.

4. Exercitando a articulação: Igreja, Reino de Deus e Mundo
Não dá para conceber a idéia da Igreja existir desvinculada do Reino de Deus, bem como do mundo. A Igreja está no mundo a serviço do Reino. Isto se constitui parte da missão da Igreja, do Povo de Deus.
A Igreja medieval passou por um momento problemático na história. Sua vida era irregular, mesmo dentro do clero havia a falta de conformidade com a causa genuína de Jesus. A corrupção dentro dos mosteiros era o reflexo da podridão reinante. O paganismo entrara na Igreja com seus diversos costumes e ensinos, que se diferenciavam da doutrina ensinada por Jesus Cristo em sua Palavra. A Igreja quando perde a sua identidade não pode ser útil à sociedade, que tanto dela precisa. A Igreja quando se afasta dos parâmetros de Cristo, passa a ser vista pelo mundo como uma comunidade qualquer, mas quando age semelhante aos cristãos dos séculos iniciais de sua existência, reluz pelo brilho da verdadeira luz, que é o próprio Cristo, sabendo ser Igreja em todo o tempo.
A Igreja de Cristo está presente no mundo, ajudando-o no seu processo de renovação e não separada dele, como fez a Igreja medieval. A Igreja, nessa fase da história, ficou dentro dos mosteiros, à parte, isolada. “Estamos orando pelo mundo”, era a voz da igreja Medieval.
O capítulo 17 do Evangelho de João reflete, na realidade, a articulação em questão, mostrando a verdadeira face da Igreja. Jesus, em sua oração intercessória, expressa a natureza da vida eterna através do conhecimento de Deus, bem como de sua missão salvífica. Enquanto Ele viveu entre os homens, manifestou a vontade do Pai, auxiliando as pessoas de todo o gênero, indiscriminadamente. Jesus continua em sua oração: “já não estou no mundo, mas eles continuarão no mundo...” (João 17.11). Os discípulos, vivendo e convivendo com as pessoas, deveriam demonstrar a prática da unidade pela pregação e vivência da verdade, sob o processo da santificação, a fim de que pudessem ajudar a todas as pessoas como fez o Senhor.
“Não peço que os tire do mundo, e, sim, que os guarde do mal” (João 17.15). Estas palavras mostram a articulação: Igreja, Reino de Deus e Mundo. São, pois, palavras que contêm uma didática toda especial, no sentido de haver uma profunda conscientização por parte da Igreja, inserida no mundo dos mortais, bem como hoje o despertamento, para que se possa ter a Igreja que desejamos.

4. Uma Igreja com Visão Missionária
É uma Igreja que está voltada para fora. Tem a dimensão de transcender na história. Sair de si para ir ao mundo.

Uma Igreja com visão missionária:

1. É uma igreja que tem uma visão que contempla o que Deus fez no passado.
Vê a libertação operada por Cristo na força do Espírito Santo.

2. É uma Igreja que contempla Deus no presente.
Crê em Deus atuando em sua providência.

3. Uma Igreja que olha para Deus no futuro.
Tem visão de futuro. Tem a esperança que não confunde e que a torna mais atuante hoje.

Rio de Janeiro, outubro de 2007.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

FÉ E OUVIR

Por: Rev. Nelson Célio de Mesquita Rocha

1.Sem fé o significado da Bíblia e, particularmente, do Novo Testamento, seria incompreensível. Seria também incompreensível a própria vida cristã. Santo Agostinho gostava muito de citar das versões latinas antigas de Is 7.9 a seguinte expressão: Nisi credideritis, non intelligetis (Se não crerdes, não entendereis).
2.No Antigo Testamento Deus é o único fiel, imutável e sempre leal à sua aliança e promessa. O Novo Testamento reafirma, naturalmente, esta verdade: “Quem fez a promessa é fiel” -pistós - (Hb 10.23; Rm 3.3; 1 Ts 5.24; 2 Ts 3.3).
3.O AT insiste que o homem, de sua parte, seja fiel a Deus, isto é, confiante, obediente, constante, repousando na fidelidade como sobre uma rocha em meio ao turbulento mar (Is 23.3ss), ou como a esposa fiel ao seu marido (Os 2.20).
4.“O justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4) – texto que São Paulo traduzirá livremente, para seus próprios propósitos (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38). Este espírito de confiança absoluta nas promessas de Deus encontrado no AT também se verifica freqüentemente no NT, especialmente em Hebreus, onde a fé é definida como “A certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1).
5.Os heróis do AT conseguiram realizar feitos poderosos e eficazes porque possuíam este tipo de fé (Hb 11).
6.O próprio Jesus Cristo é exemplo claro desta fidelidade (“O Autor e Consumador da fé” Hb 12.2), pois suportou a cruz e toda a sorte de males e tentações que conhecemos (Hb 4.15; 2.17ss).
7.São Paulo prefere chamar de esperança o que Hebreus chama de fé: “Mas se esperamos o que não vemos” (Rm 8.25); contudo, Paulo entende a fé como está descrita no AT (Rm 3.3; 1 Co 1.9; 10.13; Gl 3.9).
8.Em geral, o NT e Paulo, em particular, ultrapassam o conceito de fé exarado no AT. Os profetas do AT lamentam constantemente que, embora Deus tenha permanecido fiel à Aliança, Israel se mostre cada vez mais infiel; e não têm esperanças de que Israel pela sua própria capacidade possa recuperar-se. A única esperança está na intervenção de Deus, que pode criar um novo coração e um novo espírito, selando também uma nova aliança, através de uma nova criação (Jr 31.31-34; Ez 14.26, etc).
9.Deus deve criar ou recriar a fé que exige. Segundo o NT foi exatamente isto o que aconteceu ao ser estabelecida a nova aliança do Senhor Jesus Cristo. Conseqüentemente, no NT, fé significa, antes de tudo, fé em Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo o objeto e o doador da fé aos discípulos. Jesus mesmo ensinou aos discípulos a necessidade fundamental da fé.

Perguntas:

1.Como você entende o conceito de fé hoje?
2.Como você tem desenvolvido a sua fé no cotidiano?
3.À luz de tanta tecnologia e o próprio desenvolvimento científico, pode haver ainda um lugar para se exercitar a fé cristã?
4.Qual a relação entre fé e ouvir?

sábado, 10 de novembro de 2007

(fev/98)
AS FIGURAS BÍBLICAS DO DIABO E DOS
DEMÔNIOS EM FACE DA CULTURA MODERNA
Juan A. Ruiz de Gopegui, SJ
(Perspectiva Teológica, ano XXIX, setembro/dezembro 1997, p. 327-352)

Traduzir ou ensinar a interpretar?


Para transmitir a Revelação da vitória de Cristo sobre todos os poderes do mal, o Novo Testamento utiliza, entre outras, as figuras de Satanás, do Diabo e dos demônios ou espíritos maus ou impuros, que, na época de Cristo, faziam parte do horizonte cultural comum a todos os povos. O objeto da fé cristã é a vitória do Salvador sobre o mal em todas as suas manifestações. Para o ouvinte ou leitor do Evangelho do nosso tempo pode surgir a pergunta: até que ponto aquelas representações bíblicas das forças do mal fazem parte da revelação ou são apenas o revestimento cultural de uma determinada época, que deve ser transposto numa nova linguagem.

Na teologia dos anos que seguiram ao Concílio Vaticano II, a figura de Satanás não ocupa um lugar de destaque. Explica-se o conjunto da fé cristã sem mencionar o nome do Diabo. Consultando o índice analítico de temas de duas importantes obras sobre o conteúdo da fé cristã — Curso fundamental da fé: Introdução ao conceito de cristianismo, de K. Rahner1 e O novo livro da fé: a fé cristã comum, de J. Feiner e L. Vischer2 pode se verificar que o nome do diabo ou satanás aparece apenas uma ou duas vezes, e quase de passagem. Ele é substituído no conjunto da obra pelo termo genérico de "mal".

Na obra de catequese fundamental, de mais de setecentas páginas, dirigida por B. Chenu e F. C. Coudreau, La foi des catholiques, Satanás é mencionado só uma vez neste breve texto: "A adesão a Cristo é o que faz soltar a presa ao maligno, cujo reinado não pode ser mais do que provisional. A vida cristã é vitória do amor de Cristo sobre todas as forças do mal e da mentira. Satanás já está vencido. Doravante não tem mais poder, além daquele que lhe concedamos. Por conseguinte, o cristão não pode afundar no desespero nem recorrer a práticas mágicas para ver-se livre do mal. Seu Senhor triunfou sobre todas as potências malignas. A vida venceu a morte. As trevas não puderam resistir diante da Luz. A fé, confiada na força libertadora de Deus, faz retroceder todo medo e toda angústia"3.

Os próprios textos do Vaticano II são também bastante parcos na explicitação das figuras bíblicas do diabo ou dos demônios. Mencionam-nos, preferentemente, sob a denominação de Maligno, apenas de forma esporádica.

Por outro lado, estas atitudes teológicas perante a figura do diabo tem antecedentes na própria Escritura. Na carta aos Romanos, que, como afirma Kertelge4, pode ser considerada como a suma da sua pregação, Paulo fala continuamente do Pecado (43 vezes) para referir-se ao poder do mal, enquanto uma só vez se refere a Satanás, no fim da carta, em Rm 16,20, onde se afirma que "em breve, o Deus da paz esmagará Satanás sob os vossos pés", afirmando, numa perspectiva escatológica, servindo-se da simbólica judaico-apocalíptica, o triunfo de Cristo sobre as divisões e os escândalos provocados por alguns membros da comunidade.

É óbvio, por um lado, que se pode falar da vitória de Cristo sobre o mal sem referir-se apenas às figuras bíblicas do Diabo ou dos demônios. Mas, por outro lado, não se deve esquecer que a renovação bíblico-litúrgica pôs a Bíblia nas mãos de todos e introduziu a proclamação em língua vernácula dos textos evangélicos, nos quais a figura do Diabo e dos endemoninhados aparecem com freqüência. Cabe, pois, perguntar se a simples substituição, na teologia e na catequese, dos diversos nomes do Diabo pela palavra Mal é suficiente para levar a uma correta compreensão da fé.

É sintomático e preocupante o ressurgimento recente de um interesse não muito sadio pelos demônios e até de certas práticas exorcísticas, originadas de uma interpretação fundamentalista dos textos bíblicos, não somente nas seitas, mas inclusive em certos grupos católicos. Nota-se também nos meios de comunicação um "secreto fascínio"5 pela divulgação de fenômenos que manifestam um mundo mágico, mítico ou preternatural.

Resulta daqui a urgência de uma catequese sobre os textos bíblicos que falam do Diabo, para que o povo cristão aprenda a interpretá-los corretamente no horizonte cultural moderno. Numa magistral conferência sobre o tema, na reunião de exorcistas diocesanos de Paris, o teólogo jesuíta René Marlé6, com a sabedoria nascida de uma longa vida a serviço da escuta e da explicação da Palavra divina, advertia que o cristão deve acolher, junto com o conteúdo da fé, a linguagem multiforme em que esse conteúdo é transmitido nos textos bíblicos e na qual somos convidados a continuar falando da revelação. Isto quer dizer que os símbolos bíblicos da expressão de nossa fé não podem ser abandonados. Devem, portanto, ser interpretados, para serem compreendidos corretamente no horizonte cultural de cada época.

Concluindo: não basta traduzir os símbolos bíblicos numa linguagem moderna. É preciso aprender a interpretá-los, porque a própria liturgia, com uma sabedoria de séculos, sempre se expressou e continuará a expressar-se na linguagem bíblica. De outra forma ela teria perdido o contato com a fonte da revelação divina e perdido toda possibilidade de vigilância crítica sobre a expressão da fé, que necessariamente sofre as influências dos cambiantes horizontes culturais no caminhar da história.

A própria Bíblia, como repetia constantemente o saudoso teólogo Juan Luis Segundo, segue esta metodologia: com suas freqüentes releituras da mensagem, mais do que ensinar-nos conteúdos fixos, nos ensina a aprender: aprender a reconhecer e a confessar a Palavra eterna e imutável nas circunstâncias mutáveis da história.


Um preâmbulo necessário: o símbolo e o conceito


Antes de entrar na análise da simbologia bíblica sobre os poderes do mal, torna-se necessária, para pessoas acostumadas à linguagem técnica e científica, uma observação sobre a linguagem simbólica.

Se a Bíblia falasse do mal apenas do ponto de vista sociológico, físico, ou psíquico, não precisaria recorrer à linguagem simbólica. Mas o mal de que fala a Bíblia, é o mal que atinge na sua raiz a obra da Criação, o mal que perverte as obras de Deus. Para falar de Deus e de todas as realidades relacionadas com o divino, não é possível falar a não ser de forma metafórica. A revelação de Deus é necessariamente simbólica porque, dada a transcendência divina, nenhuma realidade criada pode significar diretamente o Criador. É preciso recorrer a estruturas de significação que designem, junto com o sentido direto e imediato, apreendido da percepção das realidades terrenas, um sentido indireto, figurado, analógico.

Entendemos por símbolo, com Ricoeur, "toda estrutura de significação em que um sentido direto, primário, literal designa por acréscimo um outro sentido indireto, secundário, figurado, que não pode ser apreendido a não ser através do primeiro"7. O símbolo, assim entendido, se distingue do simples sinal ou da mera função significativa de toda linguagem ou expressão. O símbolo é um sinal aberto a sentidos escondidos, mais plenos, que é preciso interpretar. As características essenciais do símbolo são: dupla intencionalidade, caráter analógico, dimensão desveladora ou epifânica (o campo do símbolo é o não-visível: o inconsciente, o metafísico, o sobrenatural, o experiencial), função mediadora ou relacional e eficácia presencializadora. É por isso que a linguagem simbólica, dada a sua função mediadora e relacional, é a linguagem por excelência da comunicação "pessoal" e, portanto, da linguagem da Revelação ou auto-comunicação divina. "Tratar os vocábulos como símbolos é interessar-se prioritariamente não pelo enunciado e o seu valor, mas pela enunciação e o sujeito que nele se comunica com outro sujeito. Diz-se "alguma coisa sobre alguma coisa", como em toda linguagem, mas a atenção está voltada ao ato de "alguém que diz essa coisa para alguém"8.

Simbólico, portanto, não equivale, como às vezes se pensa, a irreal. Ao contrário, a linguagem simbólica pode expressar o real de forma muito mais densa do que a linguagem abstrata, além de poder expressar aquilo que transcende o visível e a aparência imediata. Definir o mal, em linguagem abstrata, como "carência do bem devido" — definição filosoficamente corretíssima, embora insuficiente para dar razão cabal da sua presença devastadora no mundo — abstrai das formas concretas em que o mal se manifesta. Com tal definição justificam-se facilmente sofismas, tão próprios da ideologia burguesa, como dizer que ser bom ou mau depende completa e unicamente de nossas opções livres. "Quem é mau — diz-se — é porque quer" ou "quem não sai da miséria é porque não trabalha". Diga-se isso ao menino que nasceu numa favela e que, por força das perversas circunstâncias que envolveram sua infância, viu-se obrigado a abandonar o lar e morar na rua! Ou aos que vêem definhar suas vidas em desumanos acampamentos de refugiados!

A linguagem simbólica sobre o mal, ao contrário, junta todas as experiências do mal, num símbolo (sym-ballein, em grego, significa "pôr junto") e, ainda por cima, trata de exprimir a profundidade abissal do mal, quando é relacionado com o mistério insondável de Deus. Em termos sociológicos podemos falar do problema do mal e até do absurdo do mal. Em termos teológicos, que é a perspectiva bíblica, é preciso falar do mistério da iniqüidade, mysterium iniquitatis9. Isto só poder ser feito de forma simbólica e com recurso a inúmeros e variados símbolos. Os símbolos dependem do horizonte cultural de cada época.


Os símbolos bíblicos do mal


Os símbolos bíblicos do mal são polimorfos, e não são simplesmente intercambiáveis, porque cada um deles tem uma função específica na expressão de uma realidade que transcende cada uma de suas expressões contingentes e parciais. Nas primeiras páginas da Bíblia, encontramos a serpente, que não é identificada com o diabo, nem apresentada como uma máscara de Satanás10.

Num determinado momento da história bíblica, aparecerá a figura de Satã, que sofrerá consideráveis evoluções semânticas no decorrer da história do povo de Deus. A Bíblia grega traduzirá o termo por Satã ou Satanás, simples transliteração do hebraico, ou por Diabo.

Após o cativeiro da Babilônia, entrarão no mundo cultural do judaísmo uma constelação enorme de demônios. João falará, além do Diabo, do Príncipe deste mundo, do Pai da mentira. Paulo preferirá falar do Pecado, como figura personalizada do mal. O Apocalipse porá em primeiro plano a figura do Dragão. Essas figuras não são simplesmente sinônimos. E a sua função específica nos relatos ou nos textos em que intervêm deve ser respeitada.

De forma muito concisa apresentaremos, aqui, apenas os símbolos ou figuras de Satã, ou o Diabo e os demônios.

Satã: O termo hebraico significa inimigo, adversário, sedutor. Em alguns textos da Bíblia é usado para referir-se aos inimigos militares ou guerreiros de Israel. No livro de Jó, aparece entre "os filhos de Deus". Não é ainda uma figura perversa. Apenas uma espécie de promotor de justiça ou acusador que, com licença de Deus, "tenta" ou põe à prova Jó para que possa aparecer sua fidelidade nas desgraças terríveis a que é submetido pelos azares do destino. Evidentemente estamos no terreno figurado. O livro de Jó é um Midrash, uma história fictícia ou narração figurada, para discutir teologicamente o mistério do mal e da providência divina.

Na concepção do antigo Israel, quem tenta ou induz ao mal, é o próprio Javé. Mais tarde, cria-se a personagem de Satã para tirar de Deus esta função odiosa. Em 2Sm 24,1, é atribuída a Deus a mesma ação que a releitura do mesmo episódio, no primeiro livro das Crônicas (21,1), atribui a Satã (ao Diabo, na tradução grega).

Na concepção popular, a imagem de Satã como instrumento da cólera divina passa a segundo plano e vai tomando corpo a imagem de um ser perverso, inimigo de Deus.

Diabo: Tradução grega de Satã. Significa, como o original hebraico, o Inimigo, o Caluniador, o Sedutor.

Demônios: A palavra daimonion designa no mundo antigo, conforme a crença popular, deuses ou semi-deuses que, com seu poder sobre-humano imprevisível e não raramente pernicioso e ameaçador, influem no destino dos homens. A magia tenta controlar estes poderes.

Na Babilônia, o povo judeu teve contato com a desenvolvida demonologia da Mesopotâmia. Mas as severas proibições da magia na Lei de Moisés impediram que tais crenças penetrassem nos escritos bíblicos, embora, de alguma forma, cheguem a influenciar-lhes a linguagem. Deve-se ter muito cuidado, porém, ao interpretar os textos em que a linguagem possa refletir de alguma forma as crenças dos povos vizinhos.

O termo demônio aparece, no Antigo Testamento grego, apenas 19 vezes. Sete delas no livro de Tobias, cujo gênero literário é o da historiografia criativa, ou seja, uma narração fictícia ou "estória" edificante que visa transmitir uma mensagem religiosa. Trata-se do demônio Asmodeo, que, apaixonado por Sara, vai matando sucessivamente seus sete maridos nas sucessivas noites de núpcias; até que Tobias, protegido pelo anjo Rafael, supera o malefício.

Em outras seis passagens, o termo designa os ídolos. Em outras três ocasiões, refere-se a habitantes quase-míticos do deserto. Por fim, no Salmo 91(90) v. 6, o termo "demônio" designa uma praga. Não se trata portanto de um ser pessoal, embora a terminologia possa refletir de alguma forma as crenças da Mesopotâmia. É importante notar que o termo daimonion é do gênero neutro.

Mas esta vigilância dos escritores bíblicos para evitar a contaminação com as crenças dos povos pagãos não impediu que no judaísmo tardio se estendesse entre o povo a atribuição de certas doenças, as de caráter psíquico ou neurológico principalmente, a forças maléficas que são designadas com o nome de demônios (por ser o termo grego do gênero neutro, melhor traduziríamos forças demoníacas) ou também de espíritos impuros. O qual não tem nada de estranho, no quadro dos conhecimentos médicos da época. Nos evangelhos, enfermidades como a lepra ou a paralisia, cujas causas ou sintomas são externos, nunca são atribuídas a demônios. Mas doenças "internas", de causas desconhecidas para a medicina, sobretudo quando seus sintomas se apresentam de forma intermitente, são concebidas como sendo causadas por um demônio ou uma força demoníaca. Suponhamos o caso do epiléptico: ele aparentemente não tem nenhuma doença, mas de repente é jogado no chão, por uma força desconhecida, começa a espumejar saliva, ranger os dentes até ficar rígido; diz-se que tem um demônio. Com maior motivo tirava-se esta conclusão no caso de esquizofrenia.

A designação dos demônios como espíritos impuros deve-se a que as doenças por eles causadas faziam com que o endemoninhado contraísse "impureza legal" e conseqüentemente fosse afastado da plena participação nos atos litúrgicos ou nas assembléias das sinagogas. Isto vai dar um sentido messiânico muito claro aos exorcismos e às curas de Jesus.

Também doenças como a surdez, a mudez ou a gagueira são atribuídas a demônios ou espíritos impuros. Um surdo e mudo aparentemente tem os órgãos da fala e da audição normais e contudo não ouve, não fala ou fala de forma balbuciante. Pensa-se que tem uma força estranha e desconhecida que o impede de falar: essa força é denominada "demônio mudo". Diz-se então que a pessoa está endemoninhada ou tem um demônio. Lembre-se que demônio é do gênero neutro11.

Por contaminação semântica o sentido do termo se amplia. Quando uma pessoa tem uma conduta que não se encaixa nos parâmetros socialmente estabelecidos (no caso da sociedade judaica os parâmetros da interpretação da Lei por parte dos dirigentes) diz-se que tem um demônio ou um espírito impuro. Talvez hoje diriam: perdeu o juízo! ou está doido! Foi dito de João Batista e de Jesus (Mt 11,18; Mc 3,30; Jo 8,52).

Concluindo podemos dizer que a Bíblia admite a existência de forças ou poderes que se opõem ao Reino de Deus e ao bem-estar do homem. Nem o AT nem o NT apresentam uma concepção unitária de tais poderes, representados por figuras e crenças populares diversificadas. O conjunto dessas figuras — podemos afirmar com Kertelge — se bem nos permite reconhecer traços pessoais nas manifestações dos poderes que se opõem a Deus, não chega a constituir-se numa figura "que justifique o conceito de um ser pessoal". "Tal impressão é confirmada pelo fato de que tanto no Antigo como no Novo Testamento se observam tendências não irrelevantes, que não apresentam o mal como um poder que agiria de forma anônima, mas antes o individualizam no comportamento do homem e o designam como pecado"12.


A integração deste quadro cultural com a fé no Deus criador


Diante deste horizonte cultural em que o ser humano é concebido como submetido a influências de poderes obscuros, bem sejam forças demoníacas que causam doenças ou condutas estranhas, ou induzido ao mal por algum ser misterioso, imaginado de forma personalizada como "inimigo" ou satã, a fé de Israel viu-se na obrigação de pensar a relação destas forças com o domínio absoluto de Deus sobre a criação e com a responsabilidade humana perante o Deus da aliança.

O relato do Paraíso, em que se narra simbolicamente o pecado da humanidade, tem como finalidade primeira responsabilizar o homem e mulher por terem sucumbido à tentação, representada pela figura da serpente, imagem do fascínio e, ao mesmo tempo, do caráter traiçoeiro e enganador de toda tentação. Esta é a figura também da proposta de "ser como deuses", ou de adquirir o poder da decisão arbitrária e egoísta sobre o bem e o mal. No relato, a figura da serpente nada tem a ver com a figura posterior do diabo.

A personalização do mal em Satã e a sua crescente compreensão como força que se opõe a Deus levam os autores dos livros apócrifos do período intertestamentário a urdir uma estória curiosa, que tenta conciliar a unicidade do poder do Criador de Javé com a presença no mundo de uma força que se opõe a Deus. Em polêmica com o dualismo dos povos vizinhos, Satã é imaginado como um anjo criado por Deus que, fazendo mau uso da sua liberdade, se pervertera. Surge assim nos escritos extrabíblicos a estória da expulsão de Satanás da glória celeste por não ter querido adorar Adão, feito à imagem de Deus13.

Esta estória (midrash haggádico ou interpretação narrativa dos escritos bíblicos) visa, em primeiro lugar, mostrar a grandeza do homem e da mulher, criados à imagem de Deus e, ao mesmo tempo, explicar a sua queda ou a sua situação de conflito no mundo, ameaçados pela tentação e pela desgraça. Seu objetivo não é definir a natureza de Satanás ou dos anjos, mas exaltar a grandeza do ser humano, criado à imagem de Deus, e portanto capaz de suscitar a inveja até dos seres celestes.

Em todo caso, a Bíblia nunca fez sua esta interpretação, que ligeiramente cristianizada passou a fazer parte da interpretação cristã das figuras bíblicas do mal, na época patrística. Na interpretação dos Padres, a revolta do Anjo mau não teria sido recusar-se a adorar a imagem de Deus em Adão, mas a Palavra de Deus feito carne em Jesus Cristo.

Por uma exegese equivocada e arbitrária de alguns textos bíblicos, Is 14,12 e Jó 41,10, os Padres começam a designar o Anjo decaído como Lúcifer. O texto de Isaías "como vieste a cair do céu, luzeiro da manhã, filho da aurora! Foste derrubado por terra, tu que subjugavas as nações" se refere à queda do rei da Babilônia, embora com o recurso de um poema que alude aos mitos das quedas dos deuses rivais. As imagens literárias com que é descrito o monstro marinho Leviatan ou Sinuoso, devorador do sol, nada tem a ver com a lenda da queda dos anjos14. É possível que contribua também para esta interpretação dos Padres o fato de que já o Midrash judaico falava de Satanás como "anjo resplandecente" e Paulo, aludindo provavelmente a essas tradições, afirme em 2Cor 11,14, que o tentador se disfarça de anjo da luz (angelon photon).

Às vezes se cita Lc 10,18, "Eu via Satanás cair do céu como relâmpago", como alusão a tal interpretação. Mas a afirmação de Jesus não é mais do que uma forma figurada de falar do sucesso da missão dos discípulos e sua vitória sobre os poderes que se opõem ao reino, simbolizadas pela figura de Satanás.

Tampouco pode-se citar para justificar a adoção, pela Bíblia, do midrash extrabíblico sobre a queda dos anjos, Jd 6 e 2Pe 2,4, que provavelmente depende de Judas. Ambos os textos, advertem contra falsos doutores que tentam desviar os fiéis da sã doutrina com teorias que desconhecemos, provavelmente do tipo gnóstico. O que está em questão no texto é uma chamada ao temor da justiça de Deus, e para isso se citam exemplos bíblicos, de caráter lendário, do castigo de Deus, como o dilúvio, Sodoma e o castigo dos anjos (ou filhos de Deus, que abandonaram sua posição seduzindo mulheres) de que se fala no enigmático texto do Gn 6,4, lido através de comentários de livros apócrifos, como Henoc. Evidentemente essas alusões vagas e imprecisas devem ser consideradas apenas como influência e contaminação cultural da linguagem, numa época — o judaísmo tardio — em que pululavam inúmeras especulações apocalípticas, estranhas ao cerne da mensagem cristã. Na tradição testemunhada neste texto do Gênesis aparece uma explicação origem dos "anjos maus" bem diferente da apresentada pelo midrash da Vida de Adão e Eva, que evidentemente nunca a Igreja pensou em adotar.


Jesus, o exorcista


Os evangelhos relatam diversas curas milagrosas realizadas por Jesus15. Entre as doenças curadas figuram também aquelas que no seu tempo eram atribuídas a demônios. E certamente Jesus realizou estas últimas através de exorcismos, como era comum na época. Podemos nos perguntar: Jesus, Filho de Deus, não sabia que tais pessoas eram apenas doentes mentais ou portadoras de distúrbios neurológicos? Os caminhos de resposta a esta pergunta devem ser procurados nos antigos Concílios que dirimiram as controvérsias cristológicas.

A natureza humana de Jesus, embora esteja unida substancialmente ao Verbo ou Palavra eterna de Deus, de forma alguma se mistura ou se confunde com a natureza divina. Conseqüentemente a sua inteligência e o seu saber não se misturam com a inteligência divina, única e indivisível do Pai, do Verbo e do Espírito. Deus, que certamente podia infundir certos conhecimentos proféticos na inteligência humana de Jesus, necessários para a sua missão, não teria razão nenhuma para infundir os conhecimentos atuais da ciência médica e psiquiátrica. Ao contrário, a verdade da encarnação mostra a suma conveniência de impedir qualquer ação extraordinária de Deus, no saber humano de Jesus, que o arrancasse da condição humana, igual à nossa em tudo, menos no pecado. Faz parte desta condição que a inteligência esteja inserida no horizonte cultural da época. Jesus certamente se apresentou como um exorcista, figura relevante no mundo religioso da época, e isto certamente tem uma significação teológica que vai além do fato de ter manifestado poder de curar certas doenças psíquicas. Significa que Jesus vêm "exorcizar" todas as forças que, ao se oporem à santidade de Deus, destroem ou desfiguram a vida humana.

À pergunta subseqüente de saber se Jesus concebia os demônios como forças pessoais ou apenas como forças impessoais que perturbam a vida humana, não é tão fácil responder. Provavelmente, no tempo de Jesus, existia a tendência, entre o povo, de conceber essas forças como subordinadas a poderes pessoais e, em último termo, ao Príncipe dos demônios: Satanás. Na controvérsia com Jesus, os escribas vindos de Jerusalém à Galiléia para acusá-lo de expulsar os demônios por poderes mágicos, dizem que ele expulsa os demônios pelo poder de Belzebu, "o senhor das moradas", estranhamente identificado com o príncipe dos demônios. Por trás da acusação, está provavelmente a crença popular de um exército de demônios ou poderes demoníacos comandado por Satanás. Belzebu poderia ser um dos príncipes dos demônios.

A resposta de Jesus faz suspeitar nele uma mentalidade um pouco diferente. Como é dito já no prólogo do evangelho de Marcos, no relato do confronto com o tentador, no deserto, há dois poderes em luta: o poder ou Espírito de Deus, em nome do qual Jesus expulsa os demônios, e as forças que se opõem ao Reino de Deus, simbolizadas pelo poder de Satã. Jesus argumenta que se ele agisse por um poder demoníaco, Satã estaria contra si mesmo, e o seu domínio estaria no fim. A argumentação de Jesus obviamente situa-se no contexto da mentalidade dos seus acusadores, que atribuem a poderes mágicos ou feiticeiros o seu domínio sobre as forças demoníacas. Nem Jesus nem a Bíblia fazem sua esta crença popular refletida na acusação dos adversários. A argumentação de Jesus quer apenas mostrar que suas curas e exorcismos mostram o poder do Espírito de Deus vencendo Satanás.

Os relatos dos exorcismos não nos podem trazer maiores esclarecimentos sobre a mentalidade do exorcista Jesus, porque eles não são meras reportagens dos fatos, mas estão "teologizados" através dos diálogos16 dos "demônios" com o exorcista, apresentados como porta-vozes dos poderes que se opõem ao Reino de Deus com Jesus, instaurador do Reino. Tais poderes são "simbolizados" pela figura de Satanás ou do Diabo. Dessa forma os relatos se tornam paradigmas da vitória definitiva de Jesus sobre os poderes do anti-reino, que, como sabiamente afirma Kertelge17, não pode ser pensado — quando se leva a sério a mensagem do NT sobre a vitória de Jesus sobre o mal e se interpreta corretamente os reflexos do horizonte cultural da época — como um "reino de Satanás", concebido como um exército ordenado de demônios sob o comando do Diabo. Tal forma de pensar estaria muito próxima de uma concepção dualística do mundo.

Há razões sérias para afirmar que o "pensar teológico" de Jesus diante dos poderes que, ao opor-se ao Reino, acabam sendo para ele próprio uma ameaça mortal — mesmo permanecendo no âmbito cultural da época quanto à etiologia das doenças "demoníacas" — tenha caminhado para uma lucidez progressiva quanto à identificação da raiz profunda do mal. Ela está, no dizer do Mestre, "no coração do homem", porque o que "torna o homem impuro é o mal que sai do seu interior" (cf. Mc 7,23). Não há aí um caminho precioso para identificar o simbolismo profundo da expulsão dos "espíritos impuros" e tentar penetrar um pouco no mistério insondável da consciência humana de Jesus? Porque certamente Jesus não viu nos pobres epilépticos ou endemoninhados, dos quais expulsava os demônios, uma ameaça ao Reino. Sentiu esta ameaça certamente naqueles que os tinham excluído da convivência religiosa e social e que, por inveja, chamavam de Belzebu, senhor das moradas, a quem os acolhia e abria as portas a essa convivência (cf. Mt 10,25). Ironizavam sua pretensão de ser o "dono da casa", porque os curava no sábado.

Os relatos de caráter midráshico das tentações de Jesus por Satanás no começo dos evangelhos sinópticos, mais desenvolvidos em Lucas e em Mateus, longe de contradizer a afirmação anterior a confirmam. Porque esses relatos figurados se referem ao combate de Jesus com as forças que se opõem ao seu messianismo e que, por sua vez, o submetem à prova tentando-o desviar dos caminhos de Deus, e é fácil identificar ao longo do relato evangélico quais foram essas forças no caminhar concreto de Jesus. Certamente não foram forças extramundanas que crucificaram o Messias.

No final do relato das tentações Lucas afirma. "Tendo esgotada toda tentação possível, o diabo afastou-se dele até o momento fixado." Lucas não apresenta nenhum outro ataque do diabo. Estas palavras só podem referir-se à paixão. A "prova" decisiva do Messias. Mas segundo os evangelhos os atores desta prova são todos seres humanos. Os relatos da paixão não falam nunca do diabo18.

Outro conceito utilizado por Jesus para referir-se aos poderes que se opõem ao Reino, e que inicia já nos evangelhos um processo de desmitização com relação as crenças populares de forças extramundanas, é o conceito de escândalo. Melhor diríamos a figura. Pois se trata de uma figura e bem expressiva: escândalo é a pedra que faz tropeçar e cair. Nos sinóticos encontramos 24 referências a esta figura. A sua análise mostra que todos os obstáculos que se opõem ao reino e impedem de entrar nele são "humanos"19. O maior escândalo será a cruz, mas é ela que vai tirar todos os outros.


Os azares e o sentido de uma interpretação


Como víamos, a interpretação extrabíblica do demônio dada pelos apócrifos judaicos condicionou a interpretação da figura bíblica de Satanás, e não tem nada de estranho que assim fosse, enquanto perdurou o horizonte cultural que projetava em seres extraterrenos a origem dos males que afligem o homem. Também não tem nada de anormal que ela entre em crise quando começam a conhecer-se melhor as origens polimórficas desses males. Não se pode ignorar, contudo, que mesmo hoje esse universo mítico de forças do mal personalizadas continua a ser para muitos o horizonte de compreensão do mistério do mal.

Em tal horizonte cultural não há outro caminho para escapar ao dualismo maniqueísta senão a concepção de Satanás como um ser criado bom, um anjo, pervertido pelo pecado. Quando a interpretação maniqueísta da realidade ameaçou corromper a fé cristã, a Igreja teve que declarar com firmeza, no decreto Firmiter do Concílio de Latrão IV, que todos os seres existentes são criaturas do único Deus e que, portanto, os seres espirituais e corpóreos foram criados por Deus e que o Diabo só podia portanto ser um ser espiritual, criado bom por Deus, pervertido pelo pecado. "O diabo, portanto, e os outros demônios — define o Concílio — foram criados certamente bons na sua natureza, mas eles por si mesmos se tornaram maus."

O menos que se pode dizer a respeito do sentido desta definição é ser controvertido20 que o Concílio tenha definido positivamente a existência dos demônios, já que a intenção do Concílio era combater o dualismo maniqueu dos Cátaros: a crença em dois princípios da realidade: um bom, criador do mundo do espírito, e outro mau, origem do universo material. Grandes teólogos defendem que somente isto é o objeto da definição21. Os que defendem que é definida também a existência argumentam a partir da forma absoluta, não hipotética, da definição. A argumentação não convence. O Concílio não podia definir algo que não estava em forma alguma em questão e que o horizonte cultural e os procedimentos de hermenêutica bíblica da época não permitiam pôr seriamente em dúvida. Do contrário teríamos que admitir que um Concílio pode definir certas verdades por acaso. Seria uma concepção quase mágica da infalibilidade do Magistério.


Outros caminhos de interpretação?


A interpretação das figuras bíblicas com a ajuda do midrash judaico da Vida de Adão e Eva cristianizado condicionou durante séculos a leitura da Bíblia. No contexto cultural do mundo antigo, essa interpretação era quase inevitável. Hoje, no horizonte da modernidade, que permite analisar com facilidade a origem de muitos males sem atribuí-los a causas extraterrenas, e sobretudo com o avanço dos estudos de exegese e hermenêutica bíblicas, o teólogo tem o dever de perguntar-se se tal interpretação está em consonância com o conjunto da revelação bíblica. Certamente é possível encontrar caminhos de interpretação para as figuras bíblicas do mal que, evitando o dualismo maniqueu, salvando melhor a responsabilidade humana e com maior respeito dos textos bíblicos (respeito, que certamente não consiste na sua leitura fundamentalista), são capazes de superar as dificuldades que a estória dos anjos decaídos suscita para a teologia. Tais interpretações estão mais em consonância com os pontos centrais da fé e com a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo.

Sempre foi difícil aos teólogos explicar como naturezas angélicas perfeitíssimas poderiam ter-se revoltado contra Deus de forma irrevogável. Pensar o caráter pessoal do Diabo e dos inumeráveis demônios obrigou também os teólogos a verdadeiros malabarismos filosóficos, na definição do conceito de pessoa. Mas há, a meu ver, duas dificuldades maiores que suscitam imediatamente a suspeita de que tal interpretação tenha entrado por caminhos sem saída.

1º A Revelação cristã jamais ousou afirmar de alguma criatura humana que esteja irremissivelmente condenada para sempre. A Revelação das penas eternas ou da morte eterna (as duas figuras são usadas na Bíblia) tem como finalidade alertar para a responsabilidade da liberdade humana. Ninguém poderá ser salvo se rejeita de forma definitiva a graça oferecida por Deus. Mas saber se, de fato, há alguém condenado ao Inferno, é uma curiosidade à qual a Revelação cristã não responde. Pertence ao mistério de Deus e da sua misericórdia. Ora, pretender saber que há infinidade de seres angélicos que foram condenados para sempre requereria, segundo a lógica e a congruência do conjunto das verdades reveladas, o apoio de uma clara e explícita afirmação bíblica sobre o fato, dada a gravidade da afirmação. E na Bíblia nada se diz a respeito.

2º Se o diabo e os demônios fossem seres angélicos condenados definitivamente, em forma alguma se explicaria, dentro da lógica da Revelação, por que são capazes de agir no mundo. Máxime sendo a afirmação central do cristianismo a vitória definitiva de Cristo sobre os poderes do mal. Que o mal continue no mundo, mesmo depois da vitória de Cristo, está em perfeita consonância com a Revelação, quando se trata do mal procedente de liberdades humanas, ainda a caminho da pátria definitiva. Isto porque, tão central como a vitória de Cristo sobre o mal, é que esta vitória se dá pelo amor, e o amor exige o respeito absoluto às liberdades.

O Catecismo da Igreja Católica, recentemente promulgado, apesar de seus méritos inegáveis, estranhamente mantém a hipótese dos anjos decaídos22. Tendo consciência desta dificuldade, vê-se obrigado a dizer que a "permissão divina da atividade diabólica — embora cause graves danos para cada homem e para a sociedade — é um grande mistério, mas ‘nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam’" (n. 395). Apelar desta forma para o mistério não é boa teologia. O "Mistério cristão" não pode ser um artifício parar escapar a dificuldades teológicas. O Mistério cristão, como foi dito acima, é a realidade da autocomunicação salvífica de Deus em Cristo. Deve-se dizer que a cruz de Cristo, a crucifixão do Filho de Deus, é um grande mistério. Insondável, certamente. Nela está em jogo o Mistério do amor e da misericórdia infinita de Deus, que superam toda inteligência. Mas esse mistério pode ser adorado, porque é o mistério de Deus que, quando acolhido, ilumina a vida humana, com tudo o que ela tem de dramático e até de trágico, embora o Mistério de Deus, ao revelar-se, não se "des-vele". Do contrário não seria o Mistério de Deus. Mas se o Mistério de Deus não se desvela e não pode ser nunca totalmente compreendido, pode-se, com a ajuda da graça, penetrar mais e mais nele, de forma que ele ilumine progressivamente toda a realidade. Encontrar Deus não é fazer a experiência do Sentido último de toda a realidade? O cristão realiza esta experiência na vitória da cruz do Cristo sobre o Mal em todas as suas manifestações.

Antes de tentar uma possível interpretação das figuras bíblicas do mal é necessário perguntar-se se a fé cristã obriga a crer nos anjos decaídos. A resposta deve ser negativa.

No Credo proclamamos a vitória de Cristo sobre o mal, a redenção e salvação do mundo na Cruz. A fé na cruz do Cristo implica necessariamente a afirmação da existência do mal que atinge a humanidade, cuja profundidade só se revela na "loucura da pregação" da cruz de Cristo. "Escândalo para os judeus e loucura para os gentios". Mas "poder de Deus para os que se salvam" (cf. 1Cor 1,21-24). O diabo, enquanto anjo decaído, não é objeto da fé cristã. Isto, porém, não quer dizer que devamos abolir a figura bíblica de Satã, ou do diabo, ou a personificação paulina do Pecado. Porque estas figuras têm a função de ajudar-nos a penetrar no abismo desconcertante e terrível do Mal, cuja profundidade só é comensurável com a profundidade do Mistério do Amor de Deus ao qual ele pretende se opor.


A perversão da liberdade criada ou a revolta da criatura contra Deus


A pergunta fundamental, portanto, deve ser: O que a Bíblia quer revelar com a figura do Diabo e dos demônios?

Que haja forças destrutivas no mundo, ninguém o pode negar. Que elas seduzem o ser humano e se apresentam, às vezes, como assustadoras e quase irresistíveis, faz parte da experiência comum da humanidade. Depois dos horrores dos massacres em massa e programados de milhões de inocentes, quem se atreverá a negá-lo. Que essas forças se apresentem como superando absurdamente a maldade que cada indivíduo pode isoladamente gerar, e que procedam como força sedutora da opção livre de cada indivíduo, explica que sejam facilmente projetadas no mundo invisível de espíritos perversos.

Mas escutando atentamente a Revelação, acolhendo de coração o mistério da Cruz de Cristo, e das forças que a causaram, sem interpretações preconcebidas ou precipitadas, Deus pode iluminar o cristão acerca dos poderes absurdos do mal que o ameaçam.

A primeira coisa que será preciso afirmar é que estas forças devem ter sua origem em seres livres e pessoais. Elas não podem ser forças maléficas da natureza, porque isso responsabilizaria a Deus pelo mal. Por outro lado, a reta razão e a revelação não permitem responsabilizar a uma determinada pessoa pelo mal do mundo, nem sequer por alguns deles, de forma isolada. Porque mesmo os causadores de males horrendos são também vítimas de forças sedutoras.

Se consideramos o ser humano isoladamente ou mesmo como ser social, mas já constituído totalmente em si, fora de qualquer relação com os semelhantes, pode-se incorrer facilmente na ilusão de conceber fora da humanidade e de forma mítica as forças sedutoras e destrutoras do mal. Mas se consideramos o ser humano, como um ser que nasce e se faz na relação com os outros, um ser que não pode ser pensado fora dessa relação, ou, se queremos, um ser que é linguagem (entendendo o termo no seu sentido mais amplo), que nasce, cresce e se faz na linguagem e enquanto linguagem, não é preciso acudir essas forças míticas para compreender que o poder sedutor do mal, sem identificar-se com cada ser humano e apresentando-se a cada um deles como exterior a si, possa ter origem no conjunto de todos eles ou, se queremos, na rede de relações por eles constituída.

A perversão da relação ou da linguagem, constitutiva dos seres humanos, mesmo procedendo deles, pode tornar-se uma força destrutiva e sedutora que se apresenta como exterior a cada indivíduo e que supera imensamente a maldade de cada uma das liberdades que a originam.

A Revelação bíblica vai mais longe. O homem é um ser chamado desde a sua origem à relação com Deus, um ser em diálogo com Deus, um ser que nasce pelo Espírito da Palavra criadora de Deus. O homem é constituído por uma linguagem sublime que é diálogo com Deus. E este diálogo com Deus constitutivo do ser humano (mercê, entenda-se, da gratuidade infinita do amor divino) envolve necessariamente o diálogo recíproco com todos os irmãos.

A conseqüência, à luz da Revelação divina, é óbvia. A perversão desse diálogo se torna uma força destrutiva e sedutora, cuja profundidade abissal corresponde à altura sublime do Mistério divino ao qual ela se opõe. Essa força é denominada, na Bíblia, de Satã: o Inimigo, o Adversário, o Acusador. Ela tem, de alguma forma, caráter pessoal: não existiria sem as pessoas. Não pode ser uma força da natureza23. Mas, sendo "pessoal", não pode, contudo, identificar-se com nenhuma dessas pessoas isoladamente. Pedro, conforme o testemunho do próprio Cristo, pode fazer em determinado momento o jogo de Satã (cf. Mc 8,33). Naquele momento, Satã não tentaria a Jesus, sem Pedro. Mas Pedro sozinho não é Satã. Por outro lado, é significativo que o motivo que leva Jesus a chamar o discípulo de Satã é o fato dele deixar-se seduzir por uma forma de pensar "humana", fechando-se assim a acolher os pensamentos de Deus.

Mas se Satã pode ser dito de alguma forma (ou de maneira analógica) "pessoal", porque tem sua origem na perversão das relações pessoais, na sua essência mais profunda, deve ser pensado como aquilo que há de mais impessoal e mais destrutor da pessoa nas relações humanas. Satã ou o Diabo, melhor diríamos no horizonte da modernidade, o diabólico ou satânico, com todas as forças demoníacas, é a máscara (que é outro sentido da palavra persona), a personagem que disfarça o conjunto das forças concretas destrutivas da pessoa. Mais que "pessoa" deveria ser dito a anti-pessoa por antonomásia. Merece bem as designações bíblicas de Adversário, Sedutor, Mentiroso, Homicida. Estas afirmações se situam na linha de pensamento de teólogos notáveis — W. Kasper, K. Lehemann, J. Ratzinger, R. Marlé24, entre outros —, levando-as às suas últimas conseqüências.

W. Kasper afirma: "O Diabo não é uma figura pessoal senão uma não-figura que se dissolve em alguma coisa de anônimo e sem rosto, um ser que se perverte no não-ser: é pessoa no modo de não pessoa"25. Mais claramente Kertelge afirma: "Na concepção bíblica pecado e morte aparecem como entidades personificadas. É possível também individualizar traços e estruturas pessoais nas figuras dos demônios e potências do mal. Mas, embora nas descrições bíblicas o diabo seja representado como uma entidade pessoal, é certo que não se lhe pode atribuir o conceito de pessoa como título de dignidade; conceito que se emprega ao referir-se a Deus e ao homem. O diabo aparece ao contrário como a perversão da dignidade pessoal".

Podemos conceber o Diabo e os demônios, mais do que como um Ente pessoal, como um "entre". Como o conjunto de poderes maléficos que estão entre os homens e que pervertem suas relações pessoais. Tem sua origem nas pessoas, mas são o que de mais impessoal e anti-pessoal pode conceber-se. Esta categoria é sugerida por Ratzinger e retomada por R. Marlé. Aqui porém é entendida de forma diferente.

"O pensamento moderno — escreve Ratzinger — dispõe, parece-me, de uma categoria que pode ajudar-nos a compreender de novo mais precisamente o poder dos demônios, cuja existência, é verdade, é independente desta categoria. Os demônios são um poder do ‘Entre’ ao qual o homem não cessa de ser confrontado sem que ele a possa fixar como uma coisa. É precisamente o que Paulo tem em mente quando ele fala dos ‘dominadores deste mundo das trevas’; quando diz que, contra eles — estes espíritos do mal que estão nos ares —, nosso combate não é dirigido contra a carne e o sangue (Ef 6,12). Ele é dirigido contra este ‘Entre’ firmemente estabelecido, que, ao mesmo tempo, encadeia os homens uns aos outros e os separa uns dos outros; este ‘Entre’ que os violenta, jogando diante deles o jogo da liberdade. Tem-se aí um traço específico do demoníaco: sua ausência de rosto, seu anonimato. Quando se pergunta se o diabo é uma pessoa, dever-se-ia responder com mais propriedade que ele é a não-pessoa (ou o antipessoal: Die Un-person, com o UN privativo de desintegração), a ruína do ser pessoal, e é por isso que é característico de sua natureza apresentar-se sem rosto; sua força própria é não deixar reconhecer. Fica firme em todo caso que este ‘Entre’ é uma potência real, melhor: um conjunto de potências e não simplesmente uma adição de eus humanos."26

Quando Ratzinger afirma que esse conjunto de potências é mais do que uma soma de eus humanos, está pensando em seres extramundanos? Parece que sim, posto que estas palavras foram escritas em resposta ao opúsculo de H. Haag, Abshied vom Teufel (Adeus ao Diabo)27. Não é fácil, porém, conceber que tipo de ser deve ser atribuído a esse "entre", ao qual é negado por um lado o "ser pessoa", mas por outro se nega que seja uma simples adição de eus humanos e uma personificação das potências do mal.

Não é necessário pensar em seres extramundanos para manter a afirmação de que a Bíblia entende por forças demoníacas é mais do que a soma de eus humanos. Aí está talvez o cerne da importância e da profundidade simbólica da figura bíblica: quando se perverte a relação humana — relação que tem sua raiz e seu fundamento em Deus, no chamado à comunhão com Deus —, ela deixa o mundo e na história uma força maléfica que supera muito, em capacidade de sedução e de perversão, a soma do poder de sedução de cada liberdade humana pervertida. Isso é devido à complexidade e riqueza do ser humano, criado para ser "a imagem de Deus", senhor da e responsável por toda a criação. As ciências antropológicas e sociológicas modernas, em diálogo interdisciplinar com a teologia, poderiam ajudar a compreender isto. Que as conseqüências da negação de Deus pelo homem ultrapassem a soma das liberdades humanas pervertidas tem sua explicação radical no chamado de toda realidade criada a ser, de alguma forma, "anjo" ou mensageiro de Deus, como a Bíblia testemunha constantemente. Quando o homem se revolta contra Deus não perverte apenas a sua liberdade individual. Sendo um nó de relações com o universo e mediador por vocação divina da orientação de todas as coisas para Deus, a negação humana de Deus desencadeia forças de perversão que adquirem proporções assustadoras e incontroláveis pelas decisões livres que as originaram.

Isto se compreende melhor em contraponto — como mostra o evangelho de Marcos — com a figura do Espírito. É pelo poder do Espírito que o Cristo vence Satanás. E que é o Espírito senão a comunhão entre o Pai e a Palavra eterna de Deus? Ratzinger afirma "o Espírito Santo é este ‘Entre’ no qual o Pai e o Filho são um". Jesus nos dá o seu Espírito para restabelecer a relação violada pelo Pecado, e sempre por ele ameaçada, dos homens entre si e com Deus.

Eis pois a finalidade das figuras bíblicas de Satã ou Diabo, do Pecado, do Dragão, da Serpente... Elas nos ajudam a penetrar na profundidade abissal do mal enquanto negação de Deus por um ser criado à imagem de Deus. Para compreender o mal apenas nas suas dimensões físicas, sociológicas, psíquicas e outras semelhantes, essas figuras seriam dispensáveis. Para o compreender na sua dimensão "teológica" elas são imprescindíveis.

Se a revelação cristã não dependesse constantemente da função "normativa" dos escritos bíblicos, poderia talvez a Igreja escolher entre essas figuras a que mais se adaptasse a uma determinada época ou substituí-la por outras. Mas tendo que voltar uma e outra vez aos escritos que são a norma da Palavra viva de Deus a cada instante, não resta outro caminho senão a paciente hermenêutica das figuras bíblicas que não podem ser abandonadas por respeito à Palavra que se fez carne.

Essa hermenêutica não deve apenas ser deixada para os teólogos de profissão. Ela deve chegar ao povo cristão que cada dia "ouve" os textos arcaicos para encontrar-se com a Palavra viva. Quando a Bíblia era afastada das mãos do povo cristão os teólogos podiam permitir-se o arbítrio e o luxo de fazer da hermenêutica privilégio de especialistas. Com a Bíblia nas mãos de todos, ensinar a interpretar a linguagem mítica no mundo da linguagem científica e técnica, é o único caminho para que as igrejas não se tornem responsáveis, por seu silêncio, pela utilização mágica e feiticista da figura do Diabo para a alienação da responsabilidade humana, para a vergonhosa exploração da miséria ou até para os mais inconfessáveis crimes, como a história do passado nos recorda28.

Cristo vence esses poderes no seu próprio terreno, tornando-se ele próprio vítima deles, vítima expiatória, ao aceitar livremente e por amor a morte que lhe é infligida pela violência. Violência que nasce da perversão das relações humanas e que, na cruz de Cristo, atinge sua virulência extrema. Jesus vence pelo poder do Espírito de Deus, que nos é dado, para que possamos, com ele, vencer o "entre" pervertido que chamamos demônio e que continuará a perturbar-nos enquanto a humanidade — na sua totalidade — não tiver acolhido o Espírito Santo, no qual o Pai e o Filho são Um e no qual nós somos um no Cristo.

Compreende-se porque o evangelho de Marcos é concebido do começo ao fim como uma luta de Cristo com Satã, pelo poder do Espírito de Deus, e uma paradoxal vitória, quando, aos olhos do mundo das trevas, parece ser vencido por ele, ou seja, pelas potências que se opõem ao Reino de Deus.


Uma última palavra sobre os exorcismos


Que os endemoninhados sejam doentes psíquicos é uma verdade dificilmente contestável, perante o avanço da ciência psiquiátrica e psicanalítica. Que a sua cura tem, nos relatos evangélicos a significação simbólica — que continua válida para nós — da luta e da vitória do Senhor ressuscitado contra as potências do mal, simbolizadas por Satanás, é ainda mais evidente.

O NT fala de pessoas endemoninhadas ou que têm demônios, mas não de pessoas possuídas por Satanás ou pelo Diabo. A terminologia de possessão "diabólica" implica já uma determinada interpretação das figuras bíblicas, que fez não poucos estragos na história. Recordem-se as caças às bruxas na Idade Média!

Ao longo da história, o conceito de pessoa endemoninhada muda notavelmente. No NT, este conceito é dado apenas a pessoas doentes. E sempre se distinguem os demônios do Diabo ou Satanás, embora nota-se uma tendência na mentalidade popular a fazer das forças demoníacas, responsáveis por certas doenças, satélites do Diabo. Mas esta mentalidade não é assumida pelo NT. Mais tarde, na história da Igreja, começa-se a usar o termo demônio como sinônimo de diabo (e até hoje em traduções de textos bíblicos e em livros litúrgicos encontramos esta confusão, bastante perniciosa para a teologia29).

Nunca, nos evangelhos, se fala de uma expulsão de Satanás ou do Diabo por parte de Jesus. A cura dos endemoninhados junto com a cura de outros doentes são um sinal que deve acompanhar a pregação do Reino. "Ao confiar aos discípulos — afirma Kertelge — a missão de curar como ele os doentes e expulsar os demônios (Mc 3,14s e par.; 6,7-12 e par.) convida-os à práxis do seu anúncio do Reino de Deus em palavras e obras, e não à assunção de determinadas práticas rituais."30 Não há nenhum indício nos evangelhos de que Jesus associe de qualquer forma os endemoninhados com o pecado pessoal. Satanás ou o diabo, ao contrário, é o símbolo do pecado, da oposição ao Reino de Deus. O Diabo nunca é objeto de exorcismos.

Os exorcismos, tal como se realizaram depois na Igreja, adquiriram um sentido bem diferente. É claro que existe no Batismo, desde os primeiros séculos, um rito exorcístico que não é senão uma oração sobre o catecúmeno, pedindo que Deus afaste dele todas as manifestações do mal, simbolizadas na Bíblia pela figura de Satanás. Junto com este gesto sacramental está a renúncia do catecúmeno a Satanás e a todas as suas "pompas e vaidades". O contexto é suficientemente simbólico (ou sacramental) para indicar o sentido do rito. A renúncia a Satanás é o contraponto da adesão ao Cristo, vencedor de Satanás.

Como dizíamos, Satanás não pode ser objeto de fé. Se assim fosse, cairíamos na magia. Porque a fé é eminentemente relação pessoal e é precisamente isso que não é possível diante da figura bíblica do Diabo. Perante as forças sombrias e enganosas por ela simbolizadas só cabe uma atitude: a renúncia. Mas uma renúncia feita na confiança que nasce da adesão ao Cristo vencedor de todos os poderes diabólicos.

Mas se Satanás não pode ser objeto de fé, também não pode ser, em primeiro lugar, objeto de conhecimento. Compreender a figura do mal, nas suas obscuras e sempre enganosas manifestações equivaleria a compreender o incompreensível: o abismo sem fundo da negação de Deus pela Criatura. No Mistério de Deus, podemos ser introduzidos pela sua graça. A negação do Mistério, a recusa de acolher a autocomunicação de Deus equivale a precipitar-se no abismo assustador do Nada.

O dever do cristão é pois renunciar a Satanás e, para isso, se o caminho do conhecimento está interditado, não o está o do discernimento dos seus enganos e das suas astúcias. Discernindo em nós quais são os pensamentos de Deus, do Espírito que nos é dado para vencer Satanás, e quais são os pensamentos humanos, ou seja os pensamentos que se recusam a acolher a manifestação de Deus na vida humana, ou ainda em outras palavras, vencendo a tentação de querer ser como Deus, Satanás pode ser vencido a cada momento.

Conforme a mentalidade antiga — presente em numerosos textos extra-bíblicos de exorcismos e refletida de alguma forma nos evangelhos — o exorcista devia conhecer o nome do demônio para o poder dominar e expulsar. Na concepção de Satanás ou das forças demoníacas proposta pela nova hermenêutica dos textos bíblicos, isto é muito mais verdadeiro. Só examinando em cada situação concreta, através do discernimento dos espíritos, quais são "os demônios" que atormentam as pessoas, as comunidades e os povos, poderemos com as armas do evangelho — auxiliadas pelas ciências que se ocupam dos distúrbios das pessoas e das sociedades — lutar contra o mal de forma eficaz.

A história do cristianismo, em concreto a forma como foi concebida e exercida muitas vezes a sua missão "exorcística", faz suspeitar que em muitas ocasiões pode ter-se recaído em "crenças não cristãs" do Diabo. Quantas vezes os sistemas repressivos que pretendiam combater as ações atribuídas ao diabo e às pessoas nelas envolvidas eram eles mesmos diabólicos!

O fenômeno da possessão diabólica é um fenômeno complexo que envolve fenômenos físicos acompanhados de fenômenos parapsíquicos. Os que continuam a defender que o fenômeno é causado pela ação de Satanás, concebido como um ser pessoal extramundano, o definem de forma mais ou menos semelhante a esta: "A possessão diabólica consiste no domínio que Satanás exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de um indivíduo. Trata-se de um fenômeno extraordinário, dos mais graves e terríveis que transforma irresistivelmente a pessoa envolvida em instrumento do poder despótico e perverso do diabo". Assim por exemplo se expressa Balducci31. Os seus argumentos, como os de outros que defendem a possessão diabólica, não são em forma alguma convincentes. Balducci afirma que fenômenos psicopatológicos, juntamente com fenômenos parapsíquicos (chamados por Balducci de "metapsíquicos") constituem um forte indício de uma possessão diabólica. J. Mischo objeta que há aqui um sofisma, não um aumento qualitativo de fenômenos para atestar uma causa sobrenatural. Os fenômenos que ele chama de metapsíquicos e que, na realidade, não são senão parapsíquicos, são tão naturais como os outros32.

Isto é só um exemplo da fragilidade da argumentação dos que sustentam a existência de possessões diabólicas. As imagens de Deus que implicam estão não raras vezes em aberta contradição com a imagem de Deus revelada em Jesus Cristo. Um Deus que vence o mal em Jesus Cristo não pode divertir-se envolvendo seus filhos nos intrincados labirintos e enigmas criados pelas especulações com as possessões diabólicas, diante das quais o homem se sente impotente e ameaçado por um poder totalmente irracional e incontrolável.

Acresce-se que os possessos geralmente são vítimas e não culpados. O fenômeno da possessão pode ser interpretado como projeção coletiva, sobre uma vítima, dos temores e distorções de um determinado grupo social. Possesso é aquele que sucumbe a essa acusação coletiva, explícita ou subliminar, feita em nome de um poder divino e se identifica com o juízo negativo que os outros fazem contra ele. É claro que o fenômeno pode revestir-se das mais diversas formas e até envolver também a conivência, culposa ou não, da vítima33.

Pois bem, levar tais vítimas de uma introjeção coletiva ao exorcista, é a melhor forma de reforçar a projeção introjetada. A Igreja hoje tem a capacidade de reconhecer — e de fato existem pronunciamentos de autoridades eclesiásticas neste sentido — casos que, no passado, por condicionamentos culturais, julgou ser da competência do "exorcista", devem ser confiados ao médico, ao psicólogo ou ao parapsicólogo34.

É claro que estas breves linhas não podem tratar o assunto com a profundidade que a sua complexidade requereria e que só um estudo interdisciplinar poderia tratar adequadamente. Elas não pretendem ser senão a conseqüência lógica da interpretação da figura bíblica do Diabo e dos demônios apresentada neste artigo.


Concluindo sem concluir


Sendo preciso concluir de alguma forma, terminarei com esta advertência, para evitar mal-entendidos: A reinterpretação das figuras bíblicas do Diabo e dos demônios não pretende reduzir o mal a seus aspectos psicológicos, sociológicos ou políticos. As figuras bíblicas continuam necessárias para descobrir a raiz última do mal e dos temores que afligem a humanidade: a rebelião contra Deus ou a sua negação ou ainda o seu esquecimento. "Conhecer o nome dos demônios" que tentam dominar os homens e mulheres de nosso tempo é um primeiro passo necessário para acolher a vitória do Cristo sobre o mistério do mal, que, na sua profundidade abissal, tem o nome de Satanás: com este nome a Bíblia designa o conjunto dos poderes que se opõem ao reino de Deus e, concomitantemente, à vida em liberdade dos irmãos.

Não se trata portanto de tentar explicar de forma racionalista o mal, tirando "a máscara do Diabo". O que está em jogo é algo muito mais sublime e mais vital para a vida cristã e para a evangelização do terceiro milênio. O primeiro milênio do cristianismo não tinha perdido o senso do simbólico presente na Bíblia, apesar do seu empenho em dialogar com a filosofia grega. Estão a testemunhá-lo os escritos dos Padres. No segundo milênio, a teologia pactuou não poucas vezes com o racionalismo dominante, apesar de ver-se ameaçada pelas descobertas científicas da modernidade. É possível esperar, se for levada a sério a consciência da autonomia das realidades terrenas afirmada pelo Vaticano II, que a Igreja do terceiro milênio reencontre em profundidade o senso e a linguagem simbólicos, porque somente assim poderá falar de Deus aos homens, de forma verdadeiramente significativa. Então talvez será compreendida a função das figuras bíblicas do Diabo e dos demônios e os cristãos se decidam a "renunciar" verdadeiramente a Satanás como "perversão do divino"35 (desse caráter divino que, pela graça de Jesus Cristo, está impresso em toda a criação) e a acolher decididamente a glória de Deus que se manifestou na cruz de Cristo e deve continuar a manifestar-se no seu Corpo, a Igreja, em luta contra todas as máscaras do mal que escravizam tantos irmãos.

Não se nega o Diabo como ser pessoal por veleidade, ou prurido teológico de modernidade, mas apaixonados pela glória de Deus! É essa paixão pela glória do Pai que levou o Cristo à cruz.




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1 São Paulo, Paulinas, 1989.

2 Petrópolis, Vozes, 1976.

3 Paris, 1984. Citado da ed. espanhola: Salamanca, Ed. Sígueme, 1986, p. 364.

4 KERTELGE, K. "Diavolo, demoni, exorcismi in prospectiva biblica", em KASPER, W. - LEHMANN K. (eds.), Diavolo - demon -possessione. Sulla realtà del male. Brescia, Queriniana, 19852, p. 43.

5 Já em 1978 o teólogo, atualmente bispo, W. Kasper se referia com esta expressão ao fenômeno. Cf. "Il problema teologico del male", em KASPER, W. - LEHMANN, K. (eds.), Diavolo - demon - possessione, p. 45.

6 MARLÉ, R., "Victoire du Christ sur les forces du mal", Esprit et vie 104 (1994) 465.

7 Le conflit des interprétations - Essai d’hermenéutique. Paris, 1969, p. 16s.

8. CHAUVET, L.-M. Symbole et sacrement. Une relecture sacramentelle de l’existence chrétienne. Paris, Ed. du Cerf, 1990, p. 196.

9 O absurdo do mal pode ser chamado de "Mistério", mysterium iniquitatis, enquanto supõe a violação do Mistério que, na linguagem cristã, é propriamente a autocomunicação salvífica de Deus em Cristo.

10 Se, a séculos de distância, no livro da Sabedoria, já nos albores da realização das promessas messiânicas, a queda de Adão é atribuída à inveja do diabo e, no Apocalipse 20,2, diz-se que o dragão vencido pelo poder do Cristo é a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, o texto permite tanto interpretar a serpente do Gênesis pela figura bíblica de Satanás, como Satanás pela figura bíblica da serpente. E certamente não obriga a identificar todas essas figuras com a concepção extrabíblica do Diabo como um anjo pervertido. Isto ficará mais claro no decorrer do artigo.

11 Cf. KITTEL (ED.) VERBETES: d a i m o h , d a i m o h i o h , d i a b o l o z , å a t a n a z , Theological Dictionary of the New Testament, II e VII, AnnArbor 1973, 1975. KERTELGE, K. "Diavolo, demoni, exorcismi in prospectiva biblica", em KASPER, W. - LEHMANN, K. (eds.), op. cit., p. 7-44. ÁLVAREZ, A. "¿El diablo y el demonio son lo mismo? Aclaraciones para una correcta comprensión", SelTeol 34 (1995) 61-64. Condensado de ¿El diablo y el demonio son lo mismo?, El liberal, 1993. FRAIJÓ, M. Satán en horas bajas. Madrid, Sal Terrae, 1993, p. 20-31 (Fé y secularidad).

12 Op. cit., p.16 s.

13 Cf. Vida de Adán y Eva, 9-16, em MACHO, A. D. (org.), Apócrifos del Nuevo Testamento II, Madrid, 1983, p. 340-341. Por seu interesse para entender a permanência durante séculos da figura de Satanás, que tem sua origem nestas tradições extrabíblicas do período intertestamentário, anexamos como apêndice a este artigo a tradução do texto.

14 Cf. Jó 3,8.

15 Sobre os exorcismos, ver: KERTELGE, K. "Jesus, seus milagres e Satanás", Concilium 103 (1975/3) 295-303. GONZÁLES-FAUS, J. I., "Jesús y los demonios. Introducción cristológica a la lucha por la justícia", EstEc 52 (1977) 487-519.

16 Interpretar estes diálogos como reminiscências dos fenômenos parapsíquicos dos possessos é um fundamentalismo ingênuo que desconhece a estudada composição dos mesmos e a sua função teológica no conjunto do evangelho. Significa ignorar os métodos narrativos dos judeus.

17 Cf. Art. cit., p. 26 s.

18 Cf. SCHWAGER, R. "Quién o qué es el diablo?", SelTeol 33 (1994) 137. Condensado do artigo: "Der vom Himmel gefallene Satan. Wer oder was ist der Teufel?, Theologie der Gegenwart 35 (1992) 255-264.

19 Sobre este tema pode ver-se o sugestivo artigo de GAUTHIER, J-M. "Quand un pauvre diable est prince de ce monde ou le scandale de Satan selon René Girard", Théologiques 5 (1997) 7-22.

20 E isto já bastaria para que a pregação cristã e a catequese não possam impôr uma determinada interpretação dos textos bíblicos como vinculante para a fé. Isso implicaria pôr um obstáculo (escândalo ou pedra de tropeço) para a acolhida da fé cristã a quem não aceitasse tal interpretação.

21 Cf. KASPER, K., op. cit., p. 58-59.

22 Se bem que ao menos tem o mérito de não dedicar ao tema mais do que uns poucos parágrafos (nos 391-394).

23. A insistência no caráter "pessoal" do Diabo em algumas afirmações do magistério é perfeitamente explicável e justificada. Do contrário, haveria que atribuir ao Deus criador a origem do mal. Que essas afirmações devam ser reinterpretadas em outros contextos culturais não tira a verdade nelas contida.

24 Cf. MARLÉ, R., art. cit.

25 KASPER, K., op. cit., p. 72.

26 RATZINGER, J., "Abschied vom Teufel?" em Dogma und Verkündigung. München, Erich Wewwel, 1973, p. 225-234, esp. 234.

27 HAAG, H. Abshied vom Teufel. Einsdiedeln, 1969. Ver também do mesmo autor: Teufesglaube. Tübingen, Katzmann, 1974. HAAG afirma que o Diabo não é uma pessoa mas a personificação do Mal.

28 Cf. neste sentido: VERNETTE, J., "Retour du Diable. Silence des Eglises?", Lumière & Vie 42 (1993/2) 5-14. GÉREST, C. "O demônio no panorama teológico dos caçadores de bruxas", Concilium 103 (1975/3) 304-319.

29 Um exemplo: Na leitura breve das Completas da Liturgia das Horas, publicadas em Portugal, lemos: "Sede sóbrios e estai vigilantes: o vosso inimigo, o demônio, anda à vossa volta, como leão que ruge...". O original grego da 1.ª carta de Pedro 5,8, donde é tirada a leitura breve, usa o termo diábolos. Deveria, portanto, ser traduzido por diabo. Para interpretar toda a força simbólica da exortação de Pedro à vigilância, não é preciso imaginar esse inimigo como anjo decaído. A virulência da luta do "inimigo" do reino não diminui em nada pelo fato de abandonar a interpretação mítica. Ao contrário, tirando a máscara "mítica" do inimigo, o cristão poderá reconhecer melhor o perigo que o ameaça e encontrar as armas mais apropriadas para lutar contra ele.

30 "Diavoli, demoni...", op. cit., p. 34.

31 "Priester, Magier, Psichopathen", no livro intitulado Die teufishe Besessenheit, p. 93, citado por J. Misho, "La ‘possessione diabolica’. Sulla psicologia delle reazioni irrazionali", em KASPER, W. - LEHMANN, K. (eds.), Diavolo - demoni - possessione. Sulla realtà del male. Brescia, Queriniana, 19852, p. 166.

32 Depois do Concílio Vaticano II a figura do exorcista não existe mais oficialmente. Também não está em vigor o rito do exorcismo. A Igreja permite, contudo, que uma diocese tenha um exorcista para esses casos estranhos em que as pessoas acreditam que estão possuídas por um demônio. No passado, sempre limitou o ministério do exorcismo a pessoas muito especializadas, para que não confundissem um simples fenômeno psicológico com o que se dizia antigamente ser uma possessão do demônio, sempre relacionada com problemas psicológicos e psiquiátricos difíceis de serem resolvidos. A condescendência da Igreja, neste assunto como em tantos outros, após as reformas que seguiram ao Vaticano, é certamente uma deferência com os bispos, padres e teólogos que defendem as antigas formas de conceber o Diabo. Ver, entre os defensores desta posição, LAURENTIN, R. Le démon, mythe ou réalite? Enseignement et expérience du Christ et de l’Église. Fayard, 1995. Para notícia do movimento que promove a restauração da figura "tradicional" (?) do exorcista e a promulgação de um novo ritual para o exorcismo: JAY, P. "Quelques réflexions sur les exorcismes. (A propos des ouvrages de G. AMORTH: Un exorciste raconte et Nouveaux récits d’un exorciste)", Esprit et vie 104 (1994).

33 Ver SCHWAGER, R., "Der vom Himmel gefallene Satan. Wer oder was ist der Teufel?", Theologie der Gegenwart 35 (1992) 255-264. Condensado em "Quién o que es el Diablo", SelTeol 33 (1994) 136-140.

34 Evidentemente não podemos tratar aqui toda a complexidade do fenômeno. Ver: MISHO, J., art. cit., p. 168. Ver tb. do mesmo autor "Perspectivas diagnósticas e psico-higiênicas interdisciplinares em casos de ‘possessão diabólica’", em Concilium 103 (1975/3) 328-345.

35 Conforme a conhecida expressão de P. Tillich. Cf. RICHARD, J., "Le démonique comme perversion du divin d’après Paul Tillich", Teologiques 5 (1997) 89-113.




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Apêndice


Satanás na "Vida de Adão e Eva"

Enquanto Adão pronunciou estas palavras, todos os seres vivos acorreram e o rodearam, e naquele momento a corrente do rio se deteve. Então Adão invocou aos gritos o Senhor Deus e a sua garganta enrouquecia a cada dia que passava. Todos os seres vivos estiveram chorando com Adão dezenove dias.


Satanás engana Eva pela segunda vez


Neste momento Satanás, seu inimigo, sobressaltou-se, transformou-se num anjo resplandecente e foi ao rio Tigris, onde se encontrava Eva. Ao vê-la chorando com uma dor tão enorme, também ele deitou a chorar. A seguir lhe disse:

— Saí daí, voltai, descansai e não choreis mais. Deixai já a tristeza, que tanto vos abruma, pois o Senhor escutou vossa lamentação e aceitou vossa penitência. Todos os anjos e eu temos implorado em favor de vossa aflição; e ele me envia a tirar-vos da água e devolver-vos os alimentos que tivestes e perdestes pelo pecado. Saí portanto e eu vos conduzirei ao lugar onde está preparada vossa comida.

Saiu Eva da água; sua carne estava como a erva pelos rigores da água. Mas, ao começar a caminhar, desmaiou e ficou semi-morta quase todo o dia. O diabo levantou-a do chão e ela, junto com ele, caminhou até Adão. Adão ao vê-los exclamou entre soluços:

— Eva, onde estão os teus rigores penitenciais? Como te deixaste seduzir pelo teu adversário, aquele que nos afastou da morada do paraíso e da alegria espiritual?

Eva, ao ouvir isto, caiu na conta de que o diabo a tinha seduzido, ao persuadi-la que saísse do rio; prostrou-se por terra e duplicou sua dor, seus lamentos e seu pranto. Adão por sua vez exclamou:

— Ai de ti, diabo, que não deixas de acometer-nos com tamanha dureza! Que tens a ver conosco? Que te fazemos para que nos persigas com tanto engano? O que temos a ver com a tua maldade? Por acaso te arrebatamos a tua glória ou provocamos a tua desonra? Seremos teus inimigos ímpios e invejosos até a morte?


A adoração de Adão, motivo de queda do demônio


O diabo, entre lágrimas, replicou-lhe:

— Adão, toda minha hostilidade, inveja e dor vêm por tua causa, já que por tua culpa fui expulso da minha glória e afastado do esplendor que tive no meio dos anjos; por tua culpa fui jogado na terra.

Adão respondeu-lhe:

— O que eu te fiz ou em que consiste minha culpa se eu não te conhecia?

O diabo insistiu:

— O que estás dizendo? Que nada fizeste? No entanto, por tua culpa eu fui expulso. No mesmo dia em que foste formado eu fui expulso da presença de Deus e afastado da companhia dos anjos, quando Deus inspirou em ti o sopro vital e teu rosto e tua figura foram feitos à imagem de Deus; quando Miguel te trouxe e fez que te adorássemos diante de Deus, e Deus disse: "Adora a imagem do Senhor Deus". Eu respondi: "Não, eu não tenho por que adorar Adão". Como Miguel me forçasse a adorar-te, eu lhe respondi: "Por que me obrigas? Eu não vou adorar a alguém pior do que eu, posto que eu sou anterior a qualquer criatura, e antes de que ele fosse feito eu já tinha sido feito. Ele deve adorar-me e não o contrário". Ao ouvir isto o resto dos anjos que estavam comigo se negaram a adorar-te. Miguel insistiu comigo: "Adora a imagem de Deus". E eu respondi: "Se Ele se irrita comigo, porei meu trono por cima dos astros do céu e serei semelhante ao Altíssimo". O Senhor indignou-se contra mim e ordenou que me expulsassem do céu e da minha glória junto com os meus anjos. Desta forma, fomos expulsos, por tua culpa, das nossas moradas e jogados à terra. No mesmo instante submergi na dor, porque tinha sido despojado de toda a minha glória, enquanto tu eras todo mimo e alegrias, aquilo mesmo do que eu tinha sido privado anteriormente.

Ao escutar estas palavras, Adão gritou entre soluços:

— "Senhor Deus, minha vida está nas tuas mãos; faz que este inimigo que tenta deitar a perder a minha alma, se afaste de mim. Devolve-me a glória da qual fui expulso".

E o diabo desapareceu da sua vista. Adão, por sua vez, mantinha-se na sua penitência de quarenta e sete dias na água do Jordão.


"Vida de Adão e Eva 9,1-16", trad. do castelhano da obra de MACHO, A. D. (org.), Apócrifos del Nuevo Testamento II. Madrid, 1983, p. 340-341.




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