DINHEIRO, PODER E FAMA EM TROCA
DA VOCAÇÃO PASTORAL?
TEOLOGIA E ALTERIDADE - Teologia a serviço da Comunidade de Fé que é a Igreja. Tem por finalidade exclusiva de facilitar o povo de Deus no caminho da reflexão Bíblico-Teológico-Sistemática. Fazer que a Teologia dialogue com as Ciências, uma vez que ela não é a única em termos de tratar do homem e do seu habitat. A Teologia ao tratar de Deus, insere também em sua reflexão as obras da Criação. Dr. Nelson Celio de Mesquita Rocha
DINHEIRO, PODER E FAMA EM TROCA
DA VOCAÇÃO PASTORAL?
A Comunicação e a Pregação
Quem está comissionado?
A estrutura racional do ser humano não
pode ser entendida sem a palavra, na qual a estrutura racional da realidade é
compreendida. A pregação da Igreja pressupõe uma compreensão das funções expressiva
e denotativa
da palavra, acrescentadas à sua função comunicativa. Assim, pode-se
afirmar que a mensagem bíblica não pode ser interpretada sem princípios
semânticos e hermenêuticos. A palavra comunica a experiência auto-relacionada e
inacessível de um eu-pessoa para
outro eu-pessoa de duas maneiras: mediante
expressão e denotação.
O poder expressivo da linguagem é a sua
capacidade de revelar e comunicar estados pessoais. Por exemplo: uma equação
algébrica tem um caráter quase exclusivamente denotativo. E um grito
tem um caráter quase exclusivamente expressivo. Assim, a maior parte da
linguagem se move entre dois polos: quanto mais científica e técnica, tanto
mais perto do polo denotativo; quanto mais poética e comunitária, tanto mais
perto do polo expressivo.
A linguagem como um meio de revelação,
ao contrário, tem o “som” e a “voz” do mistério divino, em e através do som e
da voz da expressão e denotação humanas. A linguagem com esse poder é “Palavra
de Deus”. A “Palavra de Deus” não contém nem mandamentos revelados nem
doutrinas reveladas. Ela acompanha e interpreta situações revelatórias.
O cristianismo confronta-nos com o Deus
trinitário. E no mais profundo do insondável mistério da Trindade pode-se
localizar o diálogo. A comunicação. É a comunicação vinda de Deus, é algo de
sua estrutura. Também, Deus concedeu ao ser humano esse dom, como parte de sua
estrutura. O ser humano criado por Deus retém sua imagem comunicativa (Imago Dei confundindo-se com essa imago comunicationis).
Considerando essa base da comunicação,
é fundamental que sejam evitadas falhas na pregação da Palavra de Deus. Uma
pregação monótona é uma falta grave, principalmente porque existem muitas
maneiras de se variar a comunicação da mensagem. Os meios de comunicação estão
se aprimorando na variedade de comunicar. E os pregadores da Palavra de Deus
não podem esquivar-se desse intento.
Comunicação e pregação andam de mãos
dadas. Comunicar a Palavra de Deus é ordem expressa de Jesus Cristo. A Igreja é
responsável por essa tarefa, pois Deus a escolheu para isso, vocacionando
dentro dela, pessoas preparadas, para transmitirem a mensagem de vida, que restaura
integralmente o ser e o existir. Assim, não cabe a qualquer um, sem nenhum preparo ou autorização, interpretar e pregar a Bíblia Sagrada. Mas, somente quem recebeu a vocação para tal exercício.
A pregação é a comunicação da mensagem
de Deus. Por isso ela é extremamente relevante. E somente a pregação bíblica é
relevante, no sentido de falar às necessidades do mundo. Pode-se observar nos
primórdios da história da Igreja que essa ocorrência era uma realidade
inegociável (Cf. Atos 2.14-36; Romanos 10.8, 14, 15).
Prof. Nelson Célio de Mesquita Rocha. Homilética: A Ciência da Oratória Sagrada. Disciplina de Teologia.
REPLETOS DO ESPÍRIRTO SANTO
Texto Bíblico: Atos 2.1-13
O que pode fazer a Igreja ser uma Igreja dinâmica? Será que é o muito trabalho que ela realiza? Será que as muitas reuniões dão a garantia de crescimento?
Não existe outro fator mais importante do que a capacidade que a Igreja tem de possuir para realizar-se como Igreja no mundo. Mas, que é essa “capacidade”? Não é a Igreja capaz? O que se entende por “capacidade”? E, qual a finalidade? Não será o devido preparo? Não será a habilitação para realizar com dinâmica a sua missão?
Uma pessoa ou qualquer organismo só será capaz para realizar alguma tarefa quando estiver repleta das qualificações para o exercício de grandes realizações.
SOBRE O TEXTO DE ATOS 2.1-13
O texto clássico do Dia de Pentecostes e o que vem adiante, nos mostram os dois centros propulsores da dinâmica da experiência cristã: O ESPÍRITO E A PALAVRA. O Espírito Santo, no Pentecostes, com sua força renovadora e unificante de Deus, reúne ao redor da pequena comunidade que dele está repleta, os representantes da nova humanidade, os povos do mundo habitado.
Todos puderam ouvir a PALAVRA DE DEUS através de Pedro, que com ousadia proclamou a mensagem transformadora, fazendo nascer uma igreja forte, como projeto histórico de Deus para o bem do mundo.
A efusão do Espírito Santo no dia de Pentecostes cumpre a promessa de Jesus: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lucas 24.49). Inaugura o tempo da Igreja. A pequena comunidade torna-se habilitada com a força do Espírito para o anúncio autorizado da salvação, dom de Deus por meio de Jesus.
Nasce a Comunidade prometida pelos profetas para o tempo final. Uma comunidade repleta, cheia, possuída pelo Espírito Santo, para ser instrumento de uma nova ordem de Deus na terra.
As implicações de uma Comunidade repleta do Espírito Santo:
1 – VIVE EM UNIDADE COMO UMA NOVA CRIAÇÃO
A) A Igreja como a “Nova Humanidade” é una, pois é da
vontade de Jesus que ela seja assim (Salmo 133.1; João 17.21; Efésios 4.13,16).
B) Há uma nova linguagem na experiência da unidade: a
da compreensão e do amor mútuo, onde todas as desigualdades desaparecem; onde o
respeito e o direito despontam como fruto da justiça.
C) A unidade faz compreender a linguagem dos outros; faz compreender quem é quem na comunidade.
2 – DESENVOLVE A UNIVERSALIDADE SEM SEPARAÇÃO
A) A universalidade caracteriza o tempo do Espírito e a
habilitação profética do novo povo.
B) Todos podem fazer parte do novo povo de Deus.
Pessoas de todas as partes do mundo formam a Igreja do Deus vivo.
C) No Pentecostes, pessoas de todos os lugares estavam
presentes, mesmo que falassem em suas línguas, outros entendiam perfeitamente.
D) Não é a Igreja o lugar do entendimento? Nada é melhor do que uma linguagem inteligível. A linguagem tem de ser expressiva (inteligível) e não denotativa (técnica).
3 – PROCLAMA A MENSAGEM
LIBERTADORA DE JESUS
A) O derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja foi
para que ela tivesse a habilitação profética, isso quer dizer: proclamar
a morte e a ressurreição do Senhor por toda parte do mundo.
B) Pentecostes não é fator emocional de uma experiência
carismático-sentimental-individualista, mas poder para comunicar as Boas Novas
de vida e de paz em todos os lugares.
C) Em Atos 2.14-41, consta que Pedro ao Proclamar
mensagem, cerca de 3.000 pessoas se uniram à Comunidade de 120 membros. E assim
a Igreja foi crescendo...
D) Nesse Dia de Pentecostes a Igreja pode apresentar os seus primeiros frutos dessa nova experiência.
CONCLUSÃO
· O Dia de Pentecostes nos faz lembrar do
grande compromisso que a Igreja do Senhor tem de viver como a missão de Deus na terra, bem como anunciar a mensagem do Reino de Deus em um mundo tão
perturbado.
No Concílio de Nicéia realizado no ano 325 d.C., convocado pelo imperador romano Constantino, Eusébio de Cesaréia, o famoso historiador cristão, sugeriu a adoção de sua própria igreja. A cidade de Nicéia ficava na Bitínia, Ásia Menor. Foi lido e aprovado em Calcedônia, no ano de 451 d.C., como sendo o credo dos 318 teólogos, pais da Igreja, conciliares de Nicéia e dos 150 teólogos que “se reuniram em outra oportunidade”, em Constantinopla, no ano 381 d.C. Daí ser frequentemente mencionado como “Credo de Constantinopla” ou “Credo Niceno-constantinopolitano”. Muitos críticos opinam ser a revisão do credo de Jerusalém transmitido por Cirilo. Assim, era fundamental que a Igreja pudesse formular de maneira organizada a sua fé de modo trinitário, a partir da natureza de Cristo e de suas relações com o Pai.
O Credo de Nicéia, que segue abaixo, consta um desdobramento da doutrina da Igreja, e é lido sempre nos cultos do Senhor, aos domingos, de forma comunitária, a uma só voz, no sentido de se fazer a Afirmação de Fé eclesial. A leitura do Credo sempre precede à Celebração do Santo Sacramento da Ceia do Senhor. Serve como preparação para se tomar a Eucaristia.
É na realidade uma síntese do que a Igreja crê e professa na sua trajetória na história da salvação. Assim consta:
“CREMOS EM UM SÓ DEUS, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em UM SÓ SENHOR JESUS CRISTO, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz de Luz, verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne do Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos, e padeceu, e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras, e subiu aos céus, e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu Reino não terá fim; e NO ESPÍRITO SANTO, Senhor e Vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou a través dos Profetas; e NA IGREJA una, santa, católica e apostólica; confessamos um só batismo para a remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro”.
Que a nossa fé seja confessada dia a dia. Que o nosso ser seja tocado profundamente pela ação da Santíssima Trindade, fazendo que a Igreja seja uma comunidade de serviço a Deus no serviço ao ser humano.
Rev. Nelson Celio de
Mesquita Rocha
“NÃO VOS DEIXAREI ÓRFÃOS...”
Texto Bíblico: João 14.16-31
· Um dos ensinamentos bíblicos que mais nos trazem
conforto é o fato de sabermos que não estamos sozinhos neste mundo. Os desafios
que sempre estão diante de nós são vencidos pela graça de Deus.
· A nossa segurança própria não nos garante nenhuma
vitória, pois o ser humano em seu estado de queda não pode atingir a vida
autêntica. Porque no estado de queda qualquer movimento do ser humano é um
movimento do ser humano caído.
· Deus não deixou o ser humano sem apoio neste grande mundo, entregue às suas próprias misérias; no pecado que desumaniza a pessoa, fazendo-a contumaz em sua própria existência, a ponto de não ser mais feliz.
EXPLICAÇÃO DO TEXTO
· Encontramos no Evangelho segundo João a ação de
Jesus Cristo, no sentido de não permitir que seus discípulos ficassem sozinhos
neste mundo. Ele promete um outro Consolador
(parakletos em grego). Indica
alguém que é chamado para estar ao
lado, como ajudador ou
defensor. Um amigo no tribunal, pois era uma palavra utilizada juridicamente.
· Eis a promessa de Jesus aos discípulos: “Não vos deixarei órfãos...” (João
14.18). O Senhor teria de cumprir a sua missão messiânica, no sentido de
preparar as pessoas para terem a verdadeira concepção de Deus, de ser humano e
de salvação. O fim principal era de resgatar a dignidade do ser humano, objeto
do amor de Deus, pelo serviço que marcou a nova realidade, onde toda a
estrutura paradigmático-escravizante se fez cair por terra, fazendo com que a
vida humana seja de obediência e glorificação a Deus.
· O Espírito Santo como dom do Pai e do Filho, segundo
o ensino do Novo Testamento, encontra a sua permanência definitiva com os
discípulos, com a Igreja; não só com eles, mas neles. Irá ajudar
especificamente os discípulos, para compensá-los pela perda da presença visível
de Jesus.
· É importante observar dois pontos fundamentais: 1) O Espírito é chamado de outro parákleto; o primeiro é Jesus. O Espírito continuará a missão até agora desempenhada por Jesus, no tempo de sua ausência; por isso, já não está certo falar em ausência; 2) O Espírito vem para os discípulos, mas não para o mundo. Há uma oposição entre os discípulos e o mundo (v.19). Os discípulos receberão o Espírito, o mundo não. O mundo não é capaz de apreender, nem de receber o Espírito.
Quais as implicações da missão do Consolador?
1 – O POVO DE DEUS NÃO ESTÁ SOZINHO (v. 16-20)
A) “Não vos
deixarei órfãos...” – O órfão é aquele que está privado do seu
provedor natural. Mas o Espírito Santo é o ajudador em toda a caminhada;
B) Essa ajuda é a promessa feita por Jesus de
forma certa e definitiva. Não é nada transitório. “Ele habita convosco”;
C) O Espírito Santo tem a missão de agir no crente, mostrando a verdade que ele deve trilhar e o prepara em santificação para o encontro com Deus no julgamento.
2 – NUTRE O AMOR E GUARDA A PALAVRA DE DEUS (v.
21-24)
A) Guardar os mandamentos está
relacionado com o amor a Deus. São admitidos na unidade com o Pai, o Filho e o
Espírito, aqueles que amam ao seu Senhor vivo e demonstram seu amor com sua
obediência;
B) O Pai que ama o Filho, ama os
que estão unidos ao Filho, e estes, amados assim pelo Pai, têm a certeza de que
o Filho também os ama e se revelará a eles;
C) Santo Agostinho: “O Espírito é o vínculo do amor (vinculum caritatis) que une o Pai e Filho, e é expressão plena do amor que flui entre o que ama e o Amado.”
3 – VIVE NA PAZ DO SENHOR QUE VENCE OS DESAFIOS (v.
27-31)
A) A Paz (Shalom) é o legado de Jesus. A expressão SHALOM era e é o
cumprimento dos judeus quando amigos se encontravam e se despediam. É o aspecto
comum da sociedade;
B) A palavra de paz que Jesus estava desejando ao
partir era diferente da que era comum no mundo. O que Ele chamou de minha paz era algo de profundo e
duradouro, é a paz que expulsa a ansiedade e o medo;
C) Paulo fala no mesmo sentido da “Paz de Cristo”, que serve de árbitro no coração dos cristãos, mantendo a harmonia entre eles (Cl 3.15), e da “Paz de Deus” que guarda seus corações e mentes, impedindo que a ansiedade entre (Fp 4.7).
· Aqueles que creem em Jesus têm a promessa do consolo do Espírito Santo. Sendo assim, não pode existir orfandade na caminhada, uma vez que os que guardam a Palavra de Deus em seus corações, vivem na plena Paz do Senhor.
SUBVERSÃO RADICAL DA SITUAÇÃO OPRESSORA
“Bem-aventurados vós... Mas ai de vós...” (Lucas 6.20b, 24a)
Nos evangelhos de Mateus 5.1-12 e Lucas 6.20-23 acha-se a expressão “Bem-aventurados” dita por Jesus Cristo. Mas, também é evidenciada uma outra expressão em Lucas 6.24-26: “Mas ai de vós...” Isto mostra um contraste acentuado proferido pelo Filho de Deus que veio a este mundo para subverter a situação existente: uma situação de opressão, geradora de miseráveis.
Subverter significa: virar de cabeça para baixo, inverter, mudar, transformar. É o que Jesus Cristo afirma em relação àqueles que estão sofrendo; que estão famintos, aflitos e perseguidos. Jesus promete o Reino de Deus aos que estão na miséria, na dependência e na dor. Ele os chama de Bem-aventurados. Isto quer dizer que há esperança para esses que estão sofrendo por defenderem o direito, a bondade e a justiça. Mas, para os que cofiam em si mesmos e exploram os mais fracos a palavra é de um tremendo julgamento: “Mas ai de vós...” Não existe meio termo para quem provoca o sofrimento dos outros. Não haverá parcialidade.
O contraste que elucida a subversão é bem característico como gênero literário da Bíblia, encontrando um paralelo forte com o Salmo 1, onde há uma diferença entre aquela pessoa que anda no caminho do Senhor e a que dessa forma não procede. Ainda no livro do profeta Jeremias observa-se o desdobramento da ideia tão explicitada por Jesus: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor” (17.5). Mas, “Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor” (17.7). Estas palavras têm um tom especial que traduzem a subversão da prepotência daqueles que são astutos, folgazões e arrivistas. Estes se iludem com a sua própria segurança.
A subversão está na Bem-aventurança, que não consagra a situação dos pobres, dos famintos ou dos aflitos como condição para acolher o Reino de Deus. Jesus não promete aos pobres tornarem-se ricos, porque se assim fora, haveria a continuidade da opressão. O que Jesus está afirmando é a subversão, a virada, a mudança no sentido de haver a verdadeira justiça, ou seja, a concretização do Reino de Deus que faz surgir novos homens e novas mulheres.
O texto do Evangelho é dirigido aos discípulos, à Comunidade,
à Igreja. Sendo assim é mister que todos os que se chamam pelo nome de Jesus
Cristo não se intimidem com os que estão querendo tirar a paz e impedir a
labuta em prol de um mundo melhor. Ainda que se tenha de oferecer a própria vida
pelo bem, certamente a vitória despontará como promessa garantida pelo Deus que
concede a Bem-aventurança. Assim, é necessário contemplar essa subversão com os
olhos da fé e da esperança militantes, crendo que somente a confiança em Deus
vai garantir aquela total derrota do mal em toda a sua dimensão.
Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha
“SAI DAÍ, PORQUE É QUENTE E PESADO!”
No período de 1983 a 1986 trabalhei no Estaleiro EMAQ – Engenharia de Máquinas, uma das empresas mais consideradas no Rio de Janeiro, cuja especialidade era a de construir navios e máquinas. O EMAQ construía navios para vários países do continente europeu. Juntamente com outros estaleiros gerava muitos empregos. Nesse tempo a indústria naval era motivo de felicidade para muitas famílias cariocas. Tive o privilégio de ser aprovado nessa empresa, bem como aprender uma profissão muito importante que era a de montar peças de navios. Eu me sentia muito importante quando a EMAQ lançava um navio ao mar. Era sempre dia de festa em um pedacinho da Ilha do Governador. Muitas autoridades se faziam presentes, tanto nacionais como internacionais. Haviam sempre solenidades com suas liturgias, ocasiões em que se davam os batismos dos navios, com seus respectivos nomes. Era certa a presença de um sacerdote da Igreja Católica Romana e os cânticos do Coral Evangélico, pois na Empresa havia uma igreja evangélica que congregava muitos funcionários de todas as denominações cristãs nos dois horários do dia. Durante os cultos todos os funcionários evangélicos estavam no mesmo nível. Enfim, eu tinha a maior alegria de trabalhar naquela empresa.
Certo dia do ano de 1984, na parte da manhã, estávamos o oficial e eu, montando uma peça no costado (lado de fora) de um navio em construção, próximo à popa. Era uma embarcação de 65 mil toneladas. O andaime estava montado a uma altura bem próxima da água, talvez uns seis metros. O oficial me avisou que precisava sair para atender a uma necessidade e pediu para que eu o aguardasse. Havia uma regra na empresa que ninguém poderia trabalhar sozinho, em certas ocasiões. Assim permaneci.
Enquanto o oficial não retornava eu
aproveitei aquele momento para orar e cantar os cânticos que aprendia na igreja,
contemplando também o vasto mar e o céu criados por Deus. Naquele instante ouvi
uma voz no mais íntimo do meu ser: - “Sai daí, porque é
quente e pesado!”. De repente caiu uma pequeníssima faísca e obedeci à voz.
Saí imediatamente. Quando saí bem rápido, sendo obediente à ordem para sair,
caiu no lugar onde eu estava uma barra de ferro quente de aproximadamente uns
70 centímetros de comprimento e duas polegadas de espessura. O ferro tinha
acabado de ser cortado por um maçariqueiro que estava no convés principal, com
seu maçarico tenaz e impiedoso. Naquele momento fiquei assombrado e ao mesmo
tempo agradecido a Deus pelo grande livramento.
Quando o oficial retornou contei o
que tinha acontecido. Ele me disse que tínhamos de subir ao convés principal do
graneleiro que estava sendo construído e falar com o funcionário responsável
por aquele ato. Fomos até o local. O oficial conversou com o maçariqueiro sobre
o ocorrido. Ele nos pediu mil desculpas, e passou a ter mais cuidado. Nós entendemos
que não haveria a necessidade de fazer alguma denúncia, uma vez que resolvemos
na santa Paz o problema e aquele homem não perderia o seu emprego.
Retornamos para o nosso lugar de trabalho. Agradeci o apoio e a preocupação do oficial e disse a ele que Deus preservou a minha vida. Ali, pude testemunhar do amor de Deus e demonstrar àquele oficial que há um Deus que cuida das pessoas. O oficial, a partir daquele dia passou a ter uma atitude diferente em relação à fé em Deus. Nos tornamos amigos.
Em relação ao que aconteceu, percebi a fragilidade da vida, a providência de Deus e a oportunidade de testemunhar cada dia mais as maravilhas do Senhor Deus. O Senhor preservou a minha vida porque no seu plano eu estava incluído, mesmo sem saber, que eu seria um instrumento nas divinas mãos, apesar de ser como a flor, que de manhã chega à sua formosura, e de noite murcha e seca.
Se os filósofos ou os profissionais da mente entenderem que foi a minha intuição, tenho e terei o maior respeito. Todavia, uma coisa é certa: Deus fala. Aquela foi a voz de Deus: - “Sai daí, porque é quente e pesado!”
Nelson Celio de Mesquita
Rocha
ELA E EU