quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Diaconia e sua busca de identidade entre a teoria e a prática - Aula 2


 A Diaconia e sua busca de identidade entre a teoria e a prática

Aula nº 2

Rev. Nelson Célio de Mesquita Rocha

      A Diaconia como disciplina de curso na Universidade é uma disciplina emergente.[1] Ela está deixando de ser secundária para ser primária na grade teológica. Mas, ainda falta muito, diante da baixa intensidade de pesquisa e de publicações.

       A ciência teológica tem um grande desafio pela frente, diante da situação em que a Igreja está inserida. Uma situação que pesa mais é o discurso sem a prática. Diante da necessidade de combinar o binômio PREGAÇÃO-PRÁXIS, significa que a pregação tem de andar lado a lado com a prática e a prática com a pregação. Segundo o ensino bíblico-teológico-doutrinário não pode haver vida cristã abstrata.

Perguntas fundamentais para reflexão:

        1.    Por que buscar identidade entre a teoria e a prática?

2.    O que significa ter uma identidade?

3.    Para que uma identidade?

4.    Qual a base para uma identidade?

      1. O porquê da busca de uma identidade se dá em função do exercício da missão cristã, quando esta anuncia a Palavra de Deus de modo integral, abrangente e concreto. Esta é uma preocupação legitimamente bíblica: cuidar do órfão, da viúva, do pobre e do estrangeiro; enfim, do próximo (Cf. Lv 19; 25.35-55; Mt 5, 6 e 7; Lc 10.25-37; 1 Jo 4.7-21...).

   2. A identidade é aquilo que identifica a comunidade. É a personalidade visual da comunidade ou do grupo, ou ainda da pessoa, resultante do efeito interativo das características comuns de suas imagens visuais. Ter um a identidade é poder se conectar com todos os campos da existência humana. No livro dos Atos dos Apóstolos é observado que a Igreja Primitiva possuía uma identidade forte diante da sociedade civil (cf. At 2.42-47; 4.32-35).

      3. O sentido legítimo de uma identidade é para poder se desenvolver; e se desenvolver com substância e alcance do objetivo para o qual algo foi criado. A diaconia, por exemplo, desenvolvida pela Igreja, mostrará a sua verdadeira face, uma vez que ela foi estabelecida pelo Senhor para ser o sal da terra e a luz do mundo.

     4. O fundamento para a identidade legítima da Igreja em sua práxis diaconal é toda a vida de Jesus Cristo. Jesus é o Deus que se humanizou. Isso quer dizer que ele se tornou como um de nós seres humanos (Fp 2.5-11). Ele deu a sua vida pelas pessoas; ele não se olvidou enquanto Deus Missionário e apaixonado, de sua criação. Assim, a Igreja que é o seu corpo na terra tem uma missão relevante.

    A identificação[2] é o processo pelo qual o indivíduo se liga a outra pessoa, ou a um grupo de pessoas ou a objetos. O indivíduo se assemelha a alguém, no pensamento ou no comportamento, através da integração de uma imagem em seu próprio eu.

    Os membros do Corpo de Cristo têm uma identificação com o próprio Cristo que é seu fundamento. Essa identificação tem a ver com o novo ser formado do mais íntimo da ação misericordiosa do Senhor (2 Co 5.17). Por isso não pode escapar de ser aquilo que deve ser, segundo o que foi operado de novo. 

Uma identidade que necessita ser qualificada pela teoria e pela prática

   Na sociedade em que vivemos há uma cultura que despreza o trabalho manual em benefício das tarefas intelectuais e religiosas.[3] Com a modernidade veio a secularização, que teima em persistir na exaltação do “espiritual” e no profundo desprezo pelo “material”. Esta postura é antibíblica.

    O dualismo “espiritual” e “material”, “sagrado” e “profano” entrou na vida dos evangélicos brasileiros através de uma espiritualidade dicotomizada que, embora seja aceita como evangélica, é verdadeiramente grega e medieval. E, isto provoca constantes desvios no modo de crer e de viver a mensagem cristã.

     Este dualismo enfatiza ao extremo o “espiritual”, esvaziando e empobrecendo em demasia a missão integral da Igreja, reduzindo-a à tarefa evangelizadora. O corpo humano, corpo material, é colocado apenas como muleta do espírito e, às vezes, muleta descartável.[4]

     Diante do exposto, é necessário resgatar o verdadeiro sentido da antropologia bíblica, que de nenhum modo ensina o conceito de que o corpo é um impedimento inútil e um estorvo para o desenvolvimento pleno da alma, que por isso deve eliminar-se na primeira oportunidade. É importante observar que a antropologia bíblica jamais induz a desdenhar ou a maltratar o corpo. No trono do juízo, por exemplo, todos serão recompensados pelas ações feitas no corpo. Neste caso o corpo provê os meios pelos quais podem expressar-se os valores morais e espirituais inerentes à alma.

    O sentido da Diaconia buscar a sua identidade entre a teoria e a prática, mostra que a vida cristã deve fundar-se nessa antropologia bíblica que concebe a vida humana integral e não dividida entre o “material” e o “espiritual”. Isto é fundamental tanto para o gozo e exercício da salvação quanto para a vida depois da morte.

Compromissos

    É tempo de haverem visões amplas, radicais e profundas. É chegado o tempo de ser vivenciada uma espiritualidade incessante e transparente cuja consequência inevitável sejam compromissos vitais com o senhorio de Cristo e, ao mesmo tempo, com as necessidades humanas em todos os níveis.[5]

        1.   Compromisso de uma vida integral – Vida integral é aquela vida vivida inteiramente sob o senhorio de Jesus Cristo, na totalidade de suas dimensões: sejam as da interioridade ou corporalidade; da vida afetiva ou intelectiva; da vontade ou do estilo de vida; dos valores ou das motivações mais profundas; da vida familiar ou da vida profissional.

        2.  Compromisso de um ministério integral – Enfatiza-se a necessidade de um ministério nascido e colocado integralmente a serviço do Senhor da Igreja. O enfoque não se refere apenas à questão do tempo parcial ou integral. Mas, já demonstra as prioridades na vida de um cristão ou de uma cristã. Assim, uma comunidade cristã caminha na direção de uma existência terapêutica, lugar de conforto, de consolo, de cura, de repouso, de reflexão, de tomada de decisões, de sonhos e de utopias; lugar de acolhe-recolhe e, depois, devolve para a vida com inspiração e esperança de um novo recomeçar.

        3.    Compromisso com um mundo integral – A proposta de uma busca de identidade entre a teoria e a prática tem o objetivo de haver um envolvimento com a massa da sociedade e uma aproximação dos desprezados, explorados e desumanizados. É tempo de realizar um ministério integral e humanizador, de diminuir as distâncias, de destruir as barreiras, de humanizar a dor, de curar os sofrimentos, de recuperar a crença em Deus Pai e nas pessoas de boa vontade. É preciso assumir que essa missão integral tem caráter universal.

Motivações para a Diaconia

       Uma leitura atenta do Evangelho mostra que Deus não está interessado somente no que fazemos, mas especialmente no porquê o fazemos. Isto quer dizer que a motivação é tão importante ou mais importante do que a ação.[6]

Ø  Motivações erradas: o sentimento de culpa; a competição com outras igrejas; o empreguismo; o ativismo impensado; o modismo; a utilização da ação social como simples isca evangelística; a manipulação política; a ocupação de espaços ociosos ...

Ø  Motivações corretas: a imitação do Cristo encarnado; a determinação de servir a Cristo através da diaconia; a identificação com as pessoas; o ato de servir a Deus juntos aos necessitados.

Para reflexão: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-7).



[1] Cf. NETO, Rodolfo Gaede. A Diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus Editora, pp. 13 ss.

[2] LIMA, Leonardo Pereira. Dicionário de Psicologia Prática, Vol. II. São Paulo: Honor Editorial, 1970, pp. 293-294.

[3] FIGUEIRÊDO, Adiel Tito de. Diaconia ou Promoção Humana. São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 47.

[4] Cf. Ibid.

[5] FIGUEIRÊDO, Adiel Tito de. Diaconia ou Promoção Humana, p. 53 ss.

[6] Ibid., p. 55 ss.


quarta-feira, 13 de julho de 2022

A semântica e a natureza da Diaconia - Aula 1

 

Prof. Nelson Célio de Mesquita Rocha

Aula nº 1

 

A semântica e a natureza da Diaconia

Marcos 10.35-45

E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre,
queremos que nos faças o que pedirmos.
E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?
E eles lhe disseram: Concede-nos que, na tua glória, nos assentemos,
um à tua direita, e outro à tua esquerda.
Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice
que eu bebo e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?
E eles lhe disseram: Podemos. Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade vós
bebereis o cálice que eu beber e sereis batizados com o batismo com que
eu sou batizado,
mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence
a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado.
E os dez, tendo ouvido isso, começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser
príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de
autoridade sobre elas;
mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser
ser grande será vosso serviçal.
E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos.
Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido,
mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

 

         O termo “diaconia” tem sido tradicionalmente associado a uma atividade secundária da Igreja.[1] Isso se dá em virtude de se ter associado a missão da Igreja à proclamação do Evangelho, cuja tarefa tem um cunho espiritual, que se resume apenas ao discurso. Assim, espiritualizando-se essa missão, relega-se o ministério da Diaconia da Igreja para segundo plano.

   Sobre “diaconia” tem-se pensado também numa associação simplesmente a assistencialismo. Uma atividade que tem o objetivo de atender apenas aos conflitos sociais e manter um certo status quo eclesial.

    Mais uma associação, referente ao termo “diaconia”, tem sido evocado: a sua identificação com prestação de serviços por parte de instituições de caridade, com o envolvimento de famílias e comunidades. Nesse caso, esses grupos sociais delegam o cuidado por seus membros necessitados a instituições especializadas, a profissionais competentes. Isso é denominado de “terceirização da caridade”.[2] Sendo desta forma, no espírito neoliberal, individualizam-se os problemas e as soluções.

     Uma vez que muitos não têm entendido o tema “diaconia” ou têm compreensões contrárias ao que ensina a Bíblia, há, portanto, a necessidade de se aceitar e compreender que a “diaconia” emerge como disciplina teológica, buscando seu espaço, sua fundamentação teológica e sua conceituação.

        A “diaconia” se apresenta com seu caráter interdisciplinar, como espaço de uma ciência teológica, imprescindível para a busca da fundamentação teológica e da conceituação contextualizada.

        Sobre o texto neotestamentário acima citado, como se pode compreender a “diaconia”?

 Perguntas fundamentais sobre o texto (Mc 10.35-45):

        1.    O que não é “diaconia” segundo a ação dos discípulos?

2.    Qual a confusão que estava em seus pensamentos?

3.    Qual o corretivo de Jesus acerca do sentido de “diaconia”?

4.    A quem é dirigido o ensino de Jesus?

Mateus 25.31-46

        ■         31. E, quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos,

              com ele, então, se assentará no trono da sua glória;

■         32. e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros,

              como o pastor aparta dos bodes as ovelhas.

■         33. E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.

■         34. Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu

              Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação

              do mundo;

■         35. porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber;

              era estrangeiro, e hospedastes-me;

■         36. estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão,

              e fostes ver-me.

■         37. Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com

              fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?

■         38. E, quando te vimos estrangeiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?

■         39. E, quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos ver-te?

■         40. E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o

              fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

■         41. Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim,

              malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

■         42. porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me

              destes de beber;

■         43. sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes;

              e estando enfermo e na prisão, não me visitastes.

■         44. Então, eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos

              com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na

              prisão e não te servimos?

■         45. Então, lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a

              um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.

■         46. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna.

 

Perguntas fundamentais sobre o texto (Mt 25.31-46):

        1.    Que ligação tem este com o texto anterior sobre a “diaconia”?

2.    Qual será o critério de julgamento do Senhor na sua vinda?

Análise da palavra “diaconia”

          ■     Diaconia deriva-se do grego diakonia, -as, h - Significa: distribuição de comida, socorro; serviço; ministério, administração, ministração.

       ■     A palavra diakonew significa: sou servo de, sirvo à mesa, ofereço comida e bebida a; sirvo, exerço o diaconato.

          Na língua grega, a mesma palavra é usada para indicar os homens ou as mulheres que ocupam esse ministério da ação social.

            A Igreja é uma comunidade de serviço, pois serve a Deus.[3] Foi instituída para servir a Deus no serviço ao ser humano. A Igreja foi estabelecida na Pedra Fundamental que é Jesus Cristo:

             Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as                     portas do inferno não prevalecerão contra ela.

      E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos              céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.[4]

          ■     “Tu és Pedro” – pétros: fragmento de pedra; pedra pequena.

  ■     “... e sobre esta pedra” – pétra: pedra grande; grande rocha.

  ■     “Edificarei a minha Igreja” – ekklesían.

  ■     “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

      A Igreja é a comunidade que serve como paradigma para as demais instituições humanas; ela é a primeira a se mostrar diante do mundo. A sua importância é tão notória, que Deus a utilizou para elaborar a Escritura Sagrada e ao mesmo tempo conservá-la, bem como disseminá-la em todo o contexto da existência humana. A Igreja é responsável pelo exercício da fé, porque ninguém exerce fé solitária e nem pode viver sem prestar serviço dentro da comunidade . Há de convir que existem aspectos inevitáveis sobre a realidade da Igreja: o pessoal e o institucional. A Igreja é comunhão de pessoas; é uma organização; é uma realidade histórica.

Virtudes e práticas da Igreja como Comunidade Diaconal, segundo Romanos 12.9-21[5]

       A Igreja é o Corpo de Cristo. É composta de todos os remidos pelo sangue do Cordeiro. Logo, deve a Igreja agir condignamente, através da sua própria razão e natureza, de ser e de existir no mundo, com suas virtudes e práticas, fundamentadas na Palavra de Deus.

A Igreja forma o povo de Deus na terra e tem por objetivo edificar a vida das pessoas de todos os lugares e de todos os tempos, sendo instrumento de Deus.

O texto bíblico da Epístola de Paulo aos Romanos, apresenta o quadro de uma Igreja que deve desenvolver as virtudes e práticas ensinadas por Deus em sua Palavra.
Há qualidades que o povo de Deus deve trazer em seu bojo, obedecendo aos parâmetros da única regra de fé e prática que é a sacrossanta Palavra de Deus, e portanto, causará, sem dúvidas, impacto profundo na sociedade.


O apóstolo Paulo ao registrar a Sabedoria do Espírito Santo, veementemente expõe com precisão “Qualidades do caráter da Igreja”, para que a mesma possa crescer em graça diante de Deus e dos homens.

 

     Vejamos o que é necessário, segundo o ensino bíblico, para que a Igreja cresça e se torne uma bênção para o Reino de Deus:

1.   A PRÁTICA DO AMOR SEM HIPOCRISIA (9, 10). Deus não quer um amor falso e hipócrita. O amor deve ser praticado em favor do próximo, do contrário Deus não pode aceitar qualquer ato, mesmo que seja em nome do amor.

2. O APEGO AO BEM REPUDIANDO O MAL (9). É preciso detestar o mal sob quaisquer pretextos. O contrário da prática cotidiana é o apego ao bem, que é Deus e sua Palavra.

3.  O FERVOR ESPIRITUAL NO SERVIÇO DO SENHOR (11). Nós não devemos ser remissos (relaxados) no serviço do Senhor, pois ele fez tudo para tivéssemos o melhor: a salvação, “Fervor espiritual” é o zelo que temos para como o serviço de Deus.                                        

4.    A PRÁTICA DA ESPERANÇA COM ALEGRIA (12). “Regozijai-vos na esperança” é a ordem da Palavra de Deus. Deus não quer que tenhamos uma esperança em reclamação, duvidando do seu poder.

5.    O EXERCÍCIO DA PACIÊNCIA NA TRIBULAÇÃO (12). Às vezes é difícil suportar as tribulações, mas é preciso confiar na graça divina. O Senhor é quem nos dá o escape. As tribulações não são maiores que o Senhor Deus.

6.    A PRÁTICA DA ORAÇÃO PERSEVERANTE (12). É preciso orar sempre e nunca esmorecer. Muito pode a oração do justo.

7.    A ASSISTÊNCIA SOCIAL E A HOSPITALIDADE (13). “Compartilhar a necessidade dos santos” é poder ajudar as pessoas que precisam. A hospitalidade é o acolhimento que os santos dão às pessoas que passam por dificuldades.

8.   A PRÁTICA DE ABENÇOAR E NÃO AMALDIÇOAR (14). É muito fácil dizer palavras ruins quando alguém nos perturba. Logo, procuramos xingar ao invés de entrega nas mãos de Deus as nossas palavras.

9.    A INTERAÇÃO E A SIMPATIA COM OS QUE SOFREM (15). “Alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram”, faz parte da missão do Filho de Deus, quando esteve entre as pessoas.

10. O EXERCÍCIO DA HUMILDADE (16). Ser humilde é viver como Jesus viveu. É preciso considerar o valor que os outros têm, reconhecendo as suas virtudes, pois todos são importantes.

11. O VIVER EM PAZ COM TODAS AS PESSOAS (18). A Paz é um dos grandes temas do Reino de Deus. Faz parte do projeto de Jesus Cristo. “Se possível, quanto depender de vós...” Todo o esforço para a paz.

12. A AUSÊNCIA DE VINGANÇA (19, 20). Deus é Deus de justiça, por isso nada de vingança. A vingança é a paga do mal pelo mal.

13. TRIUNFAR SOBRE O MAL ATRAVÉS DO BEM (21). O mal não tem mais força que o Sumo Bem que é Deus, o nosso amigo. Onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus.

________________________________________

[1] Cf. NETO, Rodolfo Gaede. A Diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus Editora, pp. 9-12.

[2] Cf. Ibid.

[3] ROCHA, Nelson Célio de M. Igreja: Comunidade de Serviço. Monografia do Curso de Bacharel em Teologia. Rio de Janeiro, pp. 55 ss.

[4] Mateus 16.18-19, SBB, ERC.

[5] ROCHA, Nelson Célio de Mesquita. Virtudes e práticas da Igreja de Cristo. Cordeiro, RJ, 27 de novembro de 1994. Adaptações feitas em Rio de Janeiro, 05.02.2003. O Título inicial era “Qualidades do Caráter da Igreja”.

terça-feira, 12 de julho de 2022

ORDEM POLÍTICA E ORDEM MORAL - PARTE 2

 

3.      Fundamento ético da ordem política

3.1.Pressuposto fundamentais

Primeiro – É de natureza teológica e se refere à afirmação sobre a essência não meramente escatológica do Reino de Deus, presente já no mistério. Existe uma relação que não é de mera identidade, nem de pura diferença, mas a expressão de uma tensão dialética entre a presença e a ausência da santidade e da justiça divina, também entre as contradições e oposições da história humana. 

Segundo – É de natureza ética e propõe como fundamento ético o justanaturalismo clássico, conforme o qual a razão moral nunca pode vir subordinada à razão política. A ordem política tem um fundamento ético, dado que a ação da liberdade histórica deve ser iluminada pela consciência moral. Portanto, a Igreja deve procurar com o ministério da Palavra, iluminar simultaneamente as consciências e robustecer a vontade no exercício histórico da liberdade. Ainda, a ação da Igreja interessa diretamente a consciência moral; contudo, indiretamente pode chegar até a esfera política, mudando progressivamente a realidade social.

Terceiro -É de caráter epistemológico e considera o pluralismo dos modelos e paradigmas, que procuram configurar a estrutura da realidade social. A Igreja, enquanto comunidade de fé, procura antes denunciar os erros e as contradições do ponto de vista da justiça, para depois propor princípios que possam melhorar a configuração das instituições políticas do ponto de vista ético.

3.2.Princípios ético-políticos 

O Estado deve procurar o bem comum sem prejudicar os direitos fundamentais dos indivíduos.

Princípios que devem ser salientados:

a) O primado da pessoa humana em ordem aos fins. Reconhecer na esfera do direito a dignidade da pessoa humana, que na esfera da religião é reconhecida também como imagem de Deus.

b) A afirmação do bem comum como valor do Estado, negando o Estado autocrático, no qual de fato são incentivados privilégios e desigualdades. Sob essa ideia se pensa o conjunto de condições que permitem aos indivíduos, famílias e instituições sociais de chegar à própria perfeição.

c) A importância da participação de todos na vida política, como assunção ciente e livre da própria responsabilidade no conjunto do processo político social, econômico e cultural. Somente desta maneira se pode permitir a superação da alienação política em todas as suas dimensões.

4.      Alguns corolários e pressuposições críticas

4.1.Crítica teológica das ideologias

Uma crítica é feita, principalmente, quando se trata de sistemas totalitários, sejam eles da filosofia marxista, da ideologia da segurança nacional e do liberalismo tecnocrático.

          O progresso não deve ser procurado exclusivamente na esfera econômica do aumento da produção, mas no melhoramento da distribuição do lucro e, sobretudo, na ordem política, social e cultural, para uma melhor participação em todos estes níveis.

          Se requer, portanto, um sistema político no qual exista uma verdadeira participação de todos os cidadãos, a tutela jurídica dos seus direitos, a promoção das instituições intermediárias, o equilíbrio dos poderes do Estado e uma justa representação política de todos.

4.2.O estado democrático como ideal político

A ideia democrática se concretiza na história por meio da liberdade política. Pode-se considerar o foco na visão teônoma,[2] possibilitando uma antropologia teológica centrada no homem enquanto imagem de Deus.

          A dignidade humana não é, portanto, uma mera indicação orientativa, mas um verdadeiro imperativo moral, ao qual deve ser subordinada à mesma razão política. Assim, a ideia do bem comum traz consigo a construção do Estado de Direito. É preciso haver um trabalho educativo das consciências, repletos dos imperativos morais da justiça os quais devem ser sempre considerados, para poder procurar o melhor progresso social, particularmente dos mais marginalizados.

          A ideia democrática se encarna na sociedade pelo agir da vontade responsável, respeitosa particularmente da liberdade e dignidade dos outros. Assim, é fundamental que haja a passagem do Estado autocrático para o Estado democrático, que tem como função o bem comum, do exercício do direito de cidadania e de todos os trabalhadores.        

          A participação de todos é importante no reformismo social, através de movimentos. Isto deve ser constantemente procurado.

Conclusão

Algumas tomadas de decisão da ação da Igreja na sociedade:

1.      A Igreja deve lutar contra as diversas formas de totalitarismo. 

2.      A ação da Igreja tem de ser crítica, denunciando profeticamente as injustiças.

3.      A Igreja, com sua mensagem, convoca a todos à instauração de uma nova ordem social inspirada pela justiça, solidariedade e paz, dada à íntima relação que existe entre a história e o Reino de Deus, já que o Cristo é simultaneamente presença do Reino e Senhor da história.

4.      A Igreja, enquanto instrumento de reparação da natureza caída, esforçar-se para que os direitos naturais sejam conhecidos e reconhecidos.

5.      A participação de todos, com respeito e liberdade política.

6.      A única alternativa: o Estado Democrático de Direito, formar a consciência política em cada cidadão.

7.      Exigências comunitárias e reformismo social na gestão política, com urgência, precisam ser pautas principais da dinâmica da Igreja.

Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha




[1] Este texto é fundamentado em anotações da obra de PASTOR, Félix Alexandre. O Reino e a História. Problemas teóricos de uma teologia da práxis. Fé e Realidade, Loyola: São Paulo. 1982, pp 113-128.

[2] Cf. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5ª Ed. Rev., pp. 68, 97-99, 157-159, 216, 247, 611, 660, 691-708, 711, 712, 713, 714. O autor propõe o conceito de “Teonomia” em lugar dos conceitos de “Autonomia e Heteronomia”.








segunda-feira, 11 de julho de 2022

ORDEM POLÍTICA E ORDEM MORAL - PARTE 1

 

1. Problemática ético-política fundamental

Existe um nexo entre religião e moral e simultaneamente entre ética e política. Assim, não se pode abstrair dos problemas da justiça social, quando se proclama a mensagem religiosa. Todos os problemas morais têm um fundamento religioso. E o papel da Igreja é enfrentar questões de justiça e de direito, quando quer propor a sua mensagem religiosa, que recolhe as instâncias proféticas de tradição bíblica e da moral evangélica.

Existe um vínculo profundo entre a mensagem evangélica e a justiça humana. A Igreja deve se manifestar diante de todos os regimes totalitaristas que se levantam; deve agir em favor dos injustiçados, dos pobres que são esmagados. A proposta cristã, tem como natureza e destino um conceito diverso do Estado, finalizado ao bem comum, guarda dos direitos fundamentais dos cidadãos e de todas as exigências sociais. Assim, haverá sempre uma tensão entre Igreja e Estado.

2. A missão profética da Igreja

2.1. O momento crítico da missão profética

A Igreja quer oferecer ao povo de Deus uma mensagem de esperança, e exercendo sua ação profética, denuncia todo o tipo de agressão à vida humana, em um contexto onde ricos e se tornam mais ricos, e pobres mais pobres.

A Igreja proclama uma mensagem de libertação integral, como fruto da humanidade remida, em ordem a um crescimento da justiça e fraternidade entre homens e mulheres, alcançando até mesmo a biodiversidade.

Ainda que o Reino de Deus não coincida necessariamente com o progresso humano, existe uma relação íntima entre escatologia e história, dado que o plano divino deve incidir na história humana e a prática da caridade implica múltiplas exigências de justiça.

A mensagem evangélica procura a conversão individual e comunitária. A mudança de cada um e a transformação da sociedade, no espírito do Evangelho. O Evangelho modifica a história, porque implica a libertação do pecado e a criação do homem novo. Assim, os imperativos religiosos e éticos se apresentam como fundamentais: justiça, liberdade, paz e caridade.

Não é somente uma tomada de consciência por uma teoria social apenas, mas se exige também a prática libertadora. Isso porque a Igreja não pode esquecer o juízo crítico da tradição profética sobre as injustiças na sociedade, nem sequer pode esquecer-se do imperativo evangélico da caridade fraterna.
2.2. A Igreja e a promoção da justiça

A salvação evangélica não pode prescindir dos problemas conexos com a libertação humana de cada um e da sociedade em conjunto, para fazer com que o pecado e as suas consequências sejam eliminados individual e coletivamente.

Libertação do pecado significa também libertação da fome e da opressão, da violência e do erro. No contexto de opressão social, é necessário anunciar a salvação cristã sob o sinal da cruz, encorajando os encarcerados e oprimidos, criticando evangelicamente os opressores e injustos.

O dever da comunidade eclesial é de educar os povos, para que seja superada toda forma de egoísmo e injustiça, para que sejam mudadas as estruturas sociais injustas e para que se desenvolva o justo progresso humano. Também, promover a libertação integral dos marginalizados e oprimidos, no espírito das bem-aventuranças, pois, a salvação cristã deve redimir a história. Assim, a Igreja convida as pessoas a instaurar uma nova ordem de justiça e de paz.

Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha

sábado, 9 de julho de 2022

A IGREJA DE CRISTO E O EXERCÍCIO DA PLENA CIDADANIA

 

“Não peço que os tire do mundo, e sim que os guardes do mal” (João 17.15).

Sobre a relevância do assunto da Igreja e o exercício da plena cidadania, no momento que se chama hoje, as igrejas locais e os concílios, quer no âmbito local e em níveis regional e nacional, não levando em conta a posição denominacional, devem marcar a história da Igreja com o empenho dinâmico de construir uma nova sociedade, que tenha as bases concretas do Reino de Deus: justiça, paz e amor.

A “cidadania” é o conjunto de direitos e deveres exercidos por um indivíduo que vive em sociedade, no que se refere ao seu poder e grau de intervenção no usufruto de seus espaços e na sua posição em poder nele intervir e transformá-lo. Essa expressão vem do latim civitas, que quer dizer cidade. Antigamente, cidadão era aquele que fazia parte da cidade, tendo direitos e deveres por nela habitar. Atualmente, esse conceito extrapola os limites urbanos, podendo ser compreendido no espaço rural.

Na oração sacerdotal de Jesus consta a sua intercessão junto ao Pai, pelos seus discípulos, no sentido de que eles não se dissociassem do mundo, pois este é o campo de atuação, da missão que é a própria Igreja. Deus tem o seu propósito de redimir o homem e o cosmo, a partir da ação proclamadora da Igreja que, não prega a si mesma como instituição plena e única, mas a mensagem de uma nova ordem para este mundo. Assim, a Igreja de Cristo não deve se constituir uma comunidade hermética, mas abrir-se para exercitar a sua missão, cuja natureza é percebida no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

ORIENTAÇÃO PASTORAL

Quando se trata de orientação pastoral, significa aquilo que a Palavra de Deus ensina para haver plena conscientização. O enfoque bíblico se faz necessário, sob uma perspectiva hermenêutica contextualizada, fugindo-se do fundamentalismo e liberalismo teológicos, permitindo-se pensar de forma equilibrada, a fim de que todos possam participar na construção de um mundo melhor, pois como seres humanos, e muito mais, como seres transformados por Cristo Jesus, considerando que a salvação cristã está inscrita na própria criação de Deus.

Tanto o púlpito da Igreja como o ensino da Escola Dominical, devem estar em harmonia nesse sentido, para haver a plena conscientização do exercício da PLENA CIDADANIA. A Bíblia nos ensina que somos cidadãos do Céu, mas também comprometidos com as coisas da terra.

DENÚNCIA DAS CAUSAS DA EXPLORAÇÃO INESCRUPULOSA ENTRE OS SERES HUMANOS, SOB QUAISQUER ÂNGULOS

A Igreja é a consciência crítica do Estado, por isso ela caminha em paralelo. Ela é comunidade profética, sendo assim, tem a missão de denunciar as injustiças e todas as causas que fazem execrar a própria vida que é dom de divino.

As tentações que sobrevêm à Igreja para que esta desista de sua missão são as mesmas pelas quais Cristo passou, por exemplo:

1. O materialismo desenfreado. O consumismo e a febre do capitalismo selvagem, fazendo surgir      a descrença e como resultado, o afastamento do homem de Deus, de si mesmo e do                        semelhante; 
2. O fanatismo que afirma o que Deus não ordena. O mágico e o imediato, como fruto de uma          visão maniqueísta, que exclui uns e outros não. O toque de mágica de um mundo de fantasia,        fazendo surgir neuróticos espirituais;
3. O poder desestrurador do humano. Quem tem mais é poderoso. Quem não tem algo, torna-se        vulnerável em sua ação humana. Percebe-se que, sobre o ser não se tem interesse, por parte de      quem detém o poder, seja econômico ou político. A valorização do ter em detrimento do ser é        quase que um absoluto que circunda as dimensões sociais, envolvendo até o aspecto religioso.

A tradição bíblico-cristã bem entendida, vale muito para se reconhecer a forte realidade da criação, e de acordo com a sua disposição estabelecida por Deus em Gênesis 1 e 2. Tudo foi criado por Deus e o homem deve olhar por esse prisma. A sua missão deve ser resgatada: de cuidar da natureza e do seu semelhante.

É fundamental que a Igreja tenha uma linha cristológica de acordo com a salvação que está inscrita na Criação. Assim, se poderá resgatar o valor do humano, a partir da vida e da obra de Jesus Cristo, que se tornou plenamente humano. Sendo humano, Jesus nos ensinou a valorizar o outro, sem as tentativas de exploração.

Duas janelas devem estar abertas: uma vida no Espírito Santo (Pneumatologia) e uma vida voltada para a realidade. Fundamentado nesse princípio, toma-se como exemplo, a cosmovisão calvinista que tem a seguinte dimensão:

            1. Uma Relação Peculiar com Deus;
            2. Uma Relação Peculiar com o Próximo;
            3. Uma Relação Peculiar com o Mundo (Cosmo).

Trabalhando-se o aspecto humano pela via da Palavra de Deus, e principalmente, pela vida e obra de Jesus de Nazaré, olhando para o que está ao redor, quer em níveis individual e coletivo, pode-se chegar a ter não só um prelúdio de um mundo melhor, mas a encarnação daquilo que Deus planejou e estabeleceu em sua Palavra para ser cumprida na sua Igreja.

Agindo-se isoladamente, haverá o descumprimento e desobediência à Palavra de Deus. Juntos, podemos construir um mundo melhor.

Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha

MODOS DE EXISTÊNCIAS CONTRASTANTES

MODOS DE EXISTÊNCIAS CONTRASTANTES Uma reflexão filosófica e teológica sobre as diferentes maneiras pelas quais o ser humano compreende, ass...