sexta-feira, 15 de julho de 2022

A Diaconia em busca de fundamentação teológica - Aula 3

 


Aula nº 3

 Prof. Nelson Célio de Mesquita Rocha


         Sobre o caráter emergente da Diaconia nos âmbitos eclesial e universitário, a suspeita de sua gravitação em torno das dimensões prática, profética e comunitária, a sua busca por uma conceituação contextualizada e por um lugar como disciplina teológica  constituem   os pressupostos para que ela invista mais na busca   e   no   aprofundamento   de   sua   base teológica.[1]

        A fim de que a Diaconia encontre desenvolvimento e possa conscientizar os membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, ela precisa estar aberta à pesquisa, considerando profunda e urgentemente o fundamento da base bíblico-teológica.

        Alguns pressupostos precisam ser refletidos na busca de uma fundamentação teológica. Mas, antes é preciso prestar bastante atenção no conteúdo do texto bíblico de Atos 2.42-47 que segue abaixo:

        Ø  E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e                     nas orações.

Ø  Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.

Ø  Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.

Ø  Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.

Ø  Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,

Ø  louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.

 

         É necessário também observar Atos 4.32-35, conforme segue:

        Ø  Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava                        exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.

Ø  Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.

Ø  Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes

Ø  e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.

       Encontra-se em Atos, relatos de uma igreja dinâmica que, a cada dia, crescia em número de pessoas, em face da qualidade de vida existente. Não era um crescimento desordenado, mas fruto de uma existência firmada na base bíblico-teológico-doutrinária. Essa base se tornava a força operante do novo povo de Deus, a Igreja, em sua fase germinal.       

Pressupostos para uma boa qualidade de vida diaconal

1.   O elemento fundamental

     “E perseveravam na doutrina dos apóstolos ...” Esta parte inicial do texto de Atos 2.42 mostra que os membros da Igreja Primitiva participavam com fidelidade do ensino dos apóstolos. Portanto, ser fiel é exercitar a fé nos ensinos do Senhor, que os apóstolos transmitiam à Igreja.

      A escuta e a obediência aos ensinos do Senhor se constitui o primeiro traço característico da comunidade cristã de todos os tempos e espaços. Desta maneira os leitores de todos os tempos e espaços têm diante dos olhos um projeto de comunidade cristã ideal no qual inspirar-se.[2]

     O elemento fundamental e que qualifica a comunidade é a perseverança ou fidelidade no empenho assumido. O verbo escolhido por Lucas, “proskarterein” significa “ser assíduo, perseverante em alguma coisa”, com ressonância litúrgica e cultural, ressalta muito bem o comportamento de dedicação constante e comprometida dos convertidos.[3]

     A perseverança se exprime em momentos ou estruturas essenciais: O ensinamento dos apóstolos, a comunhão fraterna e a fração do pão.

*   O ensinamento dos apóstolos

     O vocábulo grego “didakê” designa a instrução ou aprofundamento que segue à adesão de fé inicial selada pelo batismo. O conteúdo abrange a releitura de textos bíblicos à luz de Cristo, e a evocação dos ensinamentos de Jesus, para guiar as opções práticas dos crentes.

      O ponto de partida de uma comunidade cristã é a escuta da Palavra. O seu crescimento e amadurecimento dependem também do aprofundamento e interiorização da Palavra. Uma palavra que não é ideologia e moralismo, mas testemunho autorizado dos apóstolos. Assim, o ensino dos apóstolos é a transmissão fiel do que Jesus ensinou.

*   A comunhão fraterna

     A expressão traduz um vocábulo grego que ocorre só em Lucas, “koinônia”.[4] Pode-se dizer que a comunhão fraterna é a união espiritual dos crentes baseada na mesma fé e no mesmo projeto de vida.[5]

     A comunidade cristã realiza o ideal dos amigos entre os quais tudo é comum. Assim, a lógica proprietária e patronal é substituída pela da participação e da solidariedade.

     Em outros autores – Paulo e João -  o termo “koinônia” indica a comunhão de fé com Deus ou com Cristo e a união mais profunda entre os crentes, que se exprime e atua na fé comum, na experiência eucarística e na participação espontânea dos bens.

*    A fração do pão

      Partir o pão ou fração do pão, no ambiente judaico, significava cumprir o gesto ritual ao início da refeição em comum: o pai de família ou o chefe do grupo toma entre as mãos o pão, dá graças a Deus e o parte para distribuí-lo aos comensais.

     Na linguagem dos Atos, a expressão refere-se a toda refeição (2.42,46). Todos participam, na condição não mais de uma família em particular, mas como família da fé com um alto projeto de vida em comum.

   A refeição comum e reservada dos cristãos acontece num clima de alegria e de simplicidade de coração. É a alegria festiva que acompanha a experiência ou a esperança da libertação ou salvação messiânica.

*    As orações

     Trata-se daquelas orações que demarcam o dia do judeu piedoso, a profissão de fé no início e no final do dia, a ação de graças antes das várias ações.

       O grupo dos cristãos toma parte assiduamente e unido na liturgia do templo. O templo de Jerusalém, para Lucas, é o centro da história salvífica, o lugar onde Jesus se manifestou como sabedoria (Lc 2.41-50) e ensinou ao povo (Lc 10.47; 21.37; 22.53).

        O grupo dos discípulos, após a páscoa, toma o lugar de Jesus no templo (24.53). Lucas, assim, ressalta a continuidade entre a nova comunidade messiânica e a antiga história da salvação, concentrada no símbolo do templo.

     Uma comunidade unida, solidária, pronta a repartir até os bens materiais, é aberta à esperança e reconhecida a Deus. Este estilo de vida traduz-se espontaneamente num estilo de oração, que dá o ritmo da vida comum dos primeiros discípulos após a páscoa.

2. A conexão entre a fundamentação e a prática

     Como já foi visto anteriormente, a diaconia tem seu fundamento no ensino biblio-teológico.  Está fundamentado no ensino de Jesus Cristo no Novo Testamento.

      Mas, é preciso ir do ensino à prática, gerando uma conexão que permita um existir sempre com o outro.

           A Igreja, o comunitário, é o lugar da chagada, ponto onde se fortalecem a fé, a esperança e o amor. A Igreja, a comunhão dos santos, fortalece para novo testemunho e envio. Por isso a fé não pode ser algo individual, particular. A fé precisa ser vivida e testemunhada para fora, na vida social.[6]

       Observemos as flores. Há as que jogam a sua  semente para bem longe do pé. Uma delas é a Balsamina, conhecida como “Beijo”. Sua semente está numa cápsula que, quando madura, explode e joga sua semente para longe. Assim é o cristão. Ele tem a necessidade de jogar a sua semente para bem longe, a fim de que ela possa achar solo fértil, germinar, crescer e ser testemunho para outros.







          A fé diaconal é restabelecida

*  A comunidade cristã celebra, estuda a Bíblia, canta, ora. Ela se reúne para buscar forças, renovar e fortalecer a fé, para melhor poder servir e se engajar no projeto de vida de Cristo.

 
             
                

 

 *      A fé diaconal se concretiza no mundo





 

  Como Igreja de Cristo nós somos responsáveis pelo que acontece no mundo que nos cerca. Por isso a fé, a a diaconia, ultrapassa os muros da comunidade, vence as barreiras e as fronteiras para caracterizar a vivência do AMOR no mundo, para se envolver nos problemas da vida do povo.


 
                  


 

 

 




3.   Os resultados positivos de uma busca incessante

          “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”.

         Enquanto a Igreja Primitiva buscava viver intensamente o ensino dos apóstolos, que é o ensino de Jesus Cristo, numa genuína comunhão de vida plena, o Senhor acrescentava os que iam sendo salvo. Isto é, havia crescimento natural.

         Não é possível padronizar a diaconia ou colocá-la em moldes estanques e acabados.[7] Isso porque a diaconia se concretiza ali onde o sofrimento e a miséria tomam forma e corpo. O próprio Jesus Cristo, na sua prática histórica como o Diácono maior (Mt 4.23 ss; Lc 4.18 ss), nos revela que a diaconia acontece a partir das exigências de situações, contextos e pessoas.

         Com esta perspectiva, destaca-se que a diaconia vivida por Jesus pode ser também a diaconia da Igreja, quando se constitui na prática e na concretização da fé, do amor e no serviço comunitário.

 *    Pistas para uma diaconia em ação

        1.    Organização de trabalho bem planejado, contando com a participação direta das                      pessoas;

2.     A valorização das capacidades e o respeito aos limites de cada pessoa;

3.     O olhar crítico e consciente da realidade mistificadora e manipuladora;

4.     A tomada de consciência de direitos e deveres das pessoas;

5.   A fundamentação nos valores e princípios éticos como: liberdade, aceitação do       diferente, justiça, participação e solidariedade;

        Resultados

1.    Pessoas conhecendo e seguindo a Jesus Cristo;

2.    O Reinado de Deus sendo estabelecido na terra;

3.    A vida humana sendo enriquecida;

4.    As concretizações humanas sendo realizadas;

5.    A boa moral e a boa ética sendo desdobradas no cotidiano;

6.    O desenvolvimento constante de uma consciência cristã sóbria.

        A Igreja do Senhor está sempre no caminho. Ela não pode parar. Parar é pecado. Assim, como povo do caminho, ela sempre está buscando melhor fazer a vontade do Pai, através da diaconia.

       Mas a diaconia tem de estar fundamentada no ensino bíblico-teológico e se projetar para fora, numa expressão de concretização da fé. Diante dessa ação, os resultados serão percebidos naturalmente.



[1] Cf. NETO, Rodolfo Gaede. A Diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus Editora, pp. 38 ss.

[2] Cf. FABRIS, Rinaldo. Os Atos dos Apóstolos. Tradução e comentários. São Paulo: Loyola, 1991, p. 75 ss.

[3] GRUNDMANN, proskartereô, GLNT V, 225-229. In: FABRIS, 76.

[4] Cf. FABRIS, Rinaldo. Os Atos dos Apóstolos, p. 76 ss.

[5] NAUCK, F., koinônia, GLNT V, 709-724. In: FABRIS, p. 76.

[6] NORDSTOKKE, Kjell (Org.). Diaconia: Fé em ação. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1995, pp. 26, 27.

[7] Cf. o estudo de NORDSTOKKE, Kjell (Org.). Diaconia: Fé em ação. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1995, pp. 28 ss..


quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Diaconia e sua busca de identidade entre a teoria e a prática - Aula 2


 A Diaconia e sua busca de identidade entre a teoria e a prática

Aula nº 2

Rev. Nelson Célio de Mesquita Rocha

      A Diaconia como disciplina de curso na Universidade é uma disciplina emergente.[1] Ela está deixando de ser secundária para ser primária na grade teológica. Mas, ainda falta muito, diante da baixa intensidade de pesquisa e de publicações.

       A ciência teológica tem um grande desafio pela frente, diante da situação em que a Igreja está inserida. Uma situação que pesa mais é o discurso sem a prática. Diante da necessidade de combinar o binômio PREGAÇÃO-PRÁXIS, significa que a pregação tem de andar lado a lado com a prática e a prática com a pregação. Segundo o ensino bíblico-teológico-doutrinário não pode haver vida cristã abstrata.

Perguntas fundamentais para reflexão:

        1.    Por que buscar identidade entre a teoria e a prática?

2.    O que significa ter uma identidade?

3.    Para que uma identidade?

4.    Qual a base para uma identidade?

      1. O porquê da busca de uma identidade se dá em função do exercício da missão cristã, quando esta anuncia a Palavra de Deus de modo integral, abrangente e concreto. Esta é uma preocupação legitimamente bíblica: cuidar do órfão, da viúva, do pobre e do estrangeiro; enfim, do próximo (Cf. Lv 19; 25.35-55; Mt 5, 6 e 7; Lc 10.25-37; 1 Jo 4.7-21...).

   2. A identidade é aquilo que identifica a comunidade. É a personalidade visual da comunidade ou do grupo, ou ainda da pessoa, resultante do efeito interativo das características comuns de suas imagens visuais. Ter um a identidade é poder se conectar com todos os campos da existência humana. No livro dos Atos dos Apóstolos é observado que a Igreja Primitiva possuía uma identidade forte diante da sociedade civil (cf. At 2.42-47; 4.32-35).

      3. O sentido legítimo de uma identidade é para poder se desenvolver; e se desenvolver com substância e alcance do objetivo para o qual algo foi criado. A diaconia, por exemplo, desenvolvida pela Igreja, mostrará a sua verdadeira face, uma vez que ela foi estabelecida pelo Senhor para ser o sal da terra e a luz do mundo.

     4. O fundamento para a identidade legítima da Igreja em sua práxis diaconal é toda a vida de Jesus Cristo. Jesus é o Deus que se humanizou. Isso quer dizer que ele se tornou como um de nós seres humanos (Fp 2.5-11). Ele deu a sua vida pelas pessoas; ele não se olvidou enquanto Deus Missionário e apaixonado, de sua criação. Assim, a Igreja que é o seu corpo na terra tem uma missão relevante.

    A identificação[2] é o processo pelo qual o indivíduo se liga a outra pessoa, ou a um grupo de pessoas ou a objetos. O indivíduo se assemelha a alguém, no pensamento ou no comportamento, através da integração de uma imagem em seu próprio eu.

    Os membros do Corpo de Cristo têm uma identificação com o próprio Cristo que é seu fundamento. Essa identificação tem a ver com o novo ser formado do mais íntimo da ação misericordiosa do Senhor (2 Co 5.17). Por isso não pode escapar de ser aquilo que deve ser, segundo o que foi operado de novo. 

Uma identidade que necessita ser qualificada pela teoria e pela prática

   Na sociedade em que vivemos há uma cultura que despreza o trabalho manual em benefício das tarefas intelectuais e religiosas.[3] Com a modernidade veio a secularização, que teima em persistir na exaltação do “espiritual” e no profundo desprezo pelo “material”. Esta postura é antibíblica.

    O dualismo “espiritual” e “material”, “sagrado” e “profano” entrou na vida dos evangélicos brasileiros através de uma espiritualidade dicotomizada que, embora seja aceita como evangélica, é verdadeiramente grega e medieval. E, isto provoca constantes desvios no modo de crer e de viver a mensagem cristã.

     Este dualismo enfatiza ao extremo o “espiritual”, esvaziando e empobrecendo em demasia a missão integral da Igreja, reduzindo-a à tarefa evangelizadora. O corpo humano, corpo material, é colocado apenas como muleta do espírito e, às vezes, muleta descartável.[4]

     Diante do exposto, é necessário resgatar o verdadeiro sentido da antropologia bíblica, que de nenhum modo ensina o conceito de que o corpo é um impedimento inútil e um estorvo para o desenvolvimento pleno da alma, que por isso deve eliminar-se na primeira oportunidade. É importante observar que a antropologia bíblica jamais induz a desdenhar ou a maltratar o corpo. No trono do juízo, por exemplo, todos serão recompensados pelas ações feitas no corpo. Neste caso o corpo provê os meios pelos quais podem expressar-se os valores morais e espirituais inerentes à alma.

    O sentido da Diaconia buscar a sua identidade entre a teoria e a prática, mostra que a vida cristã deve fundar-se nessa antropologia bíblica que concebe a vida humana integral e não dividida entre o “material” e o “espiritual”. Isto é fundamental tanto para o gozo e exercício da salvação quanto para a vida depois da morte.

Compromissos

    É tempo de haverem visões amplas, radicais e profundas. É chegado o tempo de ser vivenciada uma espiritualidade incessante e transparente cuja consequência inevitável sejam compromissos vitais com o senhorio de Cristo e, ao mesmo tempo, com as necessidades humanas em todos os níveis.[5]

        1.   Compromisso de uma vida integral – Vida integral é aquela vida vivida inteiramente sob o senhorio de Jesus Cristo, na totalidade de suas dimensões: sejam as da interioridade ou corporalidade; da vida afetiva ou intelectiva; da vontade ou do estilo de vida; dos valores ou das motivações mais profundas; da vida familiar ou da vida profissional.

        2.  Compromisso de um ministério integral – Enfatiza-se a necessidade de um ministério nascido e colocado integralmente a serviço do Senhor da Igreja. O enfoque não se refere apenas à questão do tempo parcial ou integral. Mas, já demonstra as prioridades na vida de um cristão ou de uma cristã. Assim, uma comunidade cristã caminha na direção de uma existência terapêutica, lugar de conforto, de consolo, de cura, de repouso, de reflexão, de tomada de decisões, de sonhos e de utopias; lugar de acolhe-recolhe e, depois, devolve para a vida com inspiração e esperança de um novo recomeçar.

        3.    Compromisso com um mundo integral – A proposta de uma busca de identidade entre a teoria e a prática tem o objetivo de haver um envolvimento com a massa da sociedade e uma aproximação dos desprezados, explorados e desumanizados. É tempo de realizar um ministério integral e humanizador, de diminuir as distâncias, de destruir as barreiras, de humanizar a dor, de curar os sofrimentos, de recuperar a crença em Deus Pai e nas pessoas de boa vontade. É preciso assumir que essa missão integral tem caráter universal.

Motivações para a Diaconia

       Uma leitura atenta do Evangelho mostra que Deus não está interessado somente no que fazemos, mas especialmente no porquê o fazemos. Isto quer dizer que a motivação é tão importante ou mais importante do que a ação.[6]

Ø  Motivações erradas: o sentimento de culpa; a competição com outras igrejas; o empreguismo; o ativismo impensado; o modismo; a utilização da ação social como simples isca evangelística; a manipulação política; a ocupação de espaços ociosos ...

Ø  Motivações corretas: a imitação do Cristo encarnado; a determinação de servir a Cristo através da diaconia; a identificação com as pessoas; o ato de servir a Deus juntos aos necessitados.

Para reflexão: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-7).



[1] Cf. NETO, Rodolfo Gaede. A Diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus Editora, pp. 13 ss.

[2] LIMA, Leonardo Pereira. Dicionário de Psicologia Prática, Vol. II. São Paulo: Honor Editorial, 1970, pp. 293-294.

[3] FIGUEIRÊDO, Adiel Tito de. Diaconia ou Promoção Humana. São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 47.

[4] Cf. Ibid.

[5] FIGUEIRÊDO, Adiel Tito de. Diaconia ou Promoção Humana, p. 53 ss.

[6] Ibid., p. 55 ss.


quarta-feira, 13 de julho de 2022

A semântica e a natureza da Diaconia - Aula 1

 

Prof. Nelson Célio de Mesquita Rocha

Aula nº 1

 

A semântica e a natureza da Diaconia

Marcos 10.35-45

E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre,
queremos que nos faças o que pedirmos.
E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?
E eles lhe disseram: Concede-nos que, na tua glória, nos assentemos,
um à tua direita, e outro à tua esquerda.
Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice
que eu bebo e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?
E eles lhe disseram: Podemos. Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade vós
bebereis o cálice que eu beber e sereis batizados com o batismo com que
eu sou batizado,
mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence
a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado.
E os dez, tendo ouvido isso, começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser
príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de
autoridade sobre elas;
mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser
ser grande será vosso serviçal.
E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos.
Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido,
mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

 

         O termo “diaconia” tem sido tradicionalmente associado a uma atividade secundária da Igreja.[1] Isso se dá em virtude de se ter associado a missão da Igreja à proclamação do Evangelho, cuja tarefa tem um cunho espiritual, que se resume apenas ao discurso. Assim, espiritualizando-se essa missão, relega-se o ministério da Diaconia da Igreja para segundo plano.

   Sobre “diaconia” tem-se pensado também numa associação simplesmente a assistencialismo. Uma atividade que tem o objetivo de atender apenas aos conflitos sociais e manter um certo status quo eclesial.

    Mais uma associação, referente ao termo “diaconia”, tem sido evocado: a sua identificação com prestação de serviços por parte de instituições de caridade, com o envolvimento de famílias e comunidades. Nesse caso, esses grupos sociais delegam o cuidado por seus membros necessitados a instituições especializadas, a profissionais competentes. Isso é denominado de “terceirização da caridade”.[2] Sendo desta forma, no espírito neoliberal, individualizam-se os problemas e as soluções.

     Uma vez que muitos não têm entendido o tema “diaconia” ou têm compreensões contrárias ao que ensina a Bíblia, há, portanto, a necessidade de se aceitar e compreender que a “diaconia” emerge como disciplina teológica, buscando seu espaço, sua fundamentação teológica e sua conceituação.

        A “diaconia” se apresenta com seu caráter interdisciplinar, como espaço de uma ciência teológica, imprescindível para a busca da fundamentação teológica e da conceituação contextualizada.

        Sobre o texto neotestamentário acima citado, como se pode compreender a “diaconia”?

 Perguntas fundamentais sobre o texto (Mc 10.35-45):

        1.    O que não é “diaconia” segundo a ação dos discípulos?

2.    Qual a confusão que estava em seus pensamentos?

3.    Qual o corretivo de Jesus acerca do sentido de “diaconia”?

4.    A quem é dirigido o ensino de Jesus?

Mateus 25.31-46

        ■         31. E, quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos,

              com ele, então, se assentará no trono da sua glória;

■         32. e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros,

              como o pastor aparta dos bodes as ovelhas.

■         33. E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.

■         34. Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu

              Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação

              do mundo;

■         35. porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber;

              era estrangeiro, e hospedastes-me;

■         36. estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão,

              e fostes ver-me.

■         37. Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com

              fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?

■         38. E, quando te vimos estrangeiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?

■         39. E, quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos ver-te?

■         40. E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o

              fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

■         41. Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim,

              malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

■         42. porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me

              destes de beber;

■         43. sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes;

              e estando enfermo e na prisão, não me visitastes.

■         44. Então, eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos

              com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na

              prisão e não te servimos?

■         45. Então, lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a

              um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.

■         46. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna.

 

Perguntas fundamentais sobre o texto (Mt 25.31-46):

        1.    Que ligação tem este com o texto anterior sobre a “diaconia”?

2.    Qual será o critério de julgamento do Senhor na sua vinda?

Análise da palavra “diaconia”

          ■     Diaconia deriva-se do grego diakonia, -as, h - Significa: distribuição de comida, socorro; serviço; ministério, administração, ministração.

       ■     A palavra diakonew significa: sou servo de, sirvo à mesa, ofereço comida e bebida a; sirvo, exerço o diaconato.

          Na língua grega, a mesma palavra é usada para indicar os homens ou as mulheres que ocupam esse ministério da ação social.

            A Igreja é uma comunidade de serviço, pois serve a Deus.[3] Foi instituída para servir a Deus no serviço ao ser humano. A Igreja foi estabelecida na Pedra Fundamental que é Jesus Cristo:

             Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as                     portas do inferno não prevalecerão contra ela.

      E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos              céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.[4]

          ■     “Tu és Pedro” – pétros: fragmento de pedra; pedra pequena.

  ■     “... e sobre esta pedra” – pétra: pedra grande; grande rocha.

  ■     “Edificarei a minha Igreja” – ekklesían.

  ■     “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

      A Igreja é a comunidade que serve como paradigma para as demais instituições humanas; ela é a primeira a se mostrar diante do mundo. A sua importância é tão notória, que Deus a utilizou para elaborar a Escritura Sagrada e ao mesmo tempo conservá-la, bem como disseminá-la em todo o contexto da existência humana. A Igreja é responsável pelo exercício da fé, porque ninguém exerce fé solitária e nem pode viver sem prestar serviço dentro da comunidade . Há de convir que existem aspectos inevitáveis sobre a realidade da Igreja: o pessoal e o institucional. A Igreja é comunhão de pessoas; é uma organização; é uma realidade histórica.

Virtudes e práticas da Igreja como Comunidade Diaconal, segundo Romanos 12.9-21[5]

       A Igreja é o Corpo de Cristo. É composta de todos os remidos pelo sangue do Cordeiro. Logo, deve a Igreja agir condignamente, através da sua própria razão e natureza, de ser e de existir no mundo, com suas virtudes e práticas, fundamentadas na Palavra de Deus.

A Igreja forma o povo de Deus na terra e tem por objetivo edificar a vida das pessoas de todos os lugares e de todos os tempos, sendo instrumento de Deus.

O texto bíblico da Epístola de Paulo aos Romanos, apresenta o quadro de uma Igreja que deve desenvolver as virtudes e práticas ensinadas por Deus em sua Palavra.
Há qualidades que o povo de Deus deve trazer em seu bojo, obedecendo aos parâmetros da única regra de fé e prática que é a sacrossanta Palavra de Deus, e portanto, causará, sem dúvidas, impacto profundo na sociedade.


O apóstolo Paulo ao registrar a Sabedoria do Espírito Santo, veementemente expõe com precisão “Qualidades do caráter da Igreja”, para que a mesma possa crescer em graça diante de Deus e dos homens.

 

     Vejamos o que é necessário, segundo o ensino bíblico, para que a Igreja cresça e se torne uma bênção para o Reino de Deus:

1.   A PRÁTICA DO AMOR SEM HIPOCRISIA (9, 10). Deus não quer um amor falso e hipócrita. O amor deve ser praticado em favor do próximo, do contrário Deus não pode aceitar qualquer ato, mesmo que seja em nome do amor.

2. O APEGO AO BEM REPUDIANDO O MAL (9). É preciso detestar o mal sob quaisquer pretextos. O contrário da prática cotidiana é o apego ao bem, que é Deus e sua Palavra.

3.  O FERVOR ESPIRITUAL NO SERVIÇO DO SENHOR (11). Nós não devemos ser remissos (relaxados) no serviço do Senhor, pois ele fez tudo para tivéssemos o melhor: a salvação, “Fervor espiritual” é o zelo que temos para como o serviço de Deus.                                        

4.    A PRÁTICA DA ESPERANÇA COM ALEGRIA (12). “Regozijai-vos na esperança” é a ordem da Palavra de Deus. Deus não quer que tenhamos uma esperança em reclamação, duvidando do seu poder.

5.    O EXERCÍCIO DA PACIÊNCIA NA TRIBULAÇÃO (12). Às vezes é difícil suportar as tribulações, mas é preciso confiar na graça divina. O Senhor é quem nos dá o escape. As tribulações não são maiores que o Senhor Deus.

6.    A PRÁTICA DA ORAÇÃO PERSEVERANTE (12). É preciso orar sempre e nunca esmorecer. Muito pode a oração do justo.

7.    A ASSISTÊNCIA SOCIAL E A HOSPITALIDADE (13). “Compartilhar a necessidade dos santos” é poder ajudar as pessoas que precisam. A hospitalidade é o acolhimento que os santos dão às pessoas que passam por dificuldades.

8.   A PRÁTICA DE ABENÇOAR E NÃO AMALDIÇOAR (14). É muito fácil dizer palavras ruins quando alguém nos perturba. Logo, procuramos xingar ao invés de entrega nas mãos de Deus as nossas palavras.

9.    A INTERAÇÃO E A SIMPATIA COM OS QUE SOFREM (15). “Alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram”, faz parte da missão do Filho de Deus, quando esteve entre as pessoas.

10. O EXERCÍCIO DA HUMILDADE (16). Ser humilde é viver como Jesus viveu. É preciso considerar o valor que os outros têm, reconhecendo as suas virtudes, pois todos são importantes.

11. O VIVER EM PAZ COM TODAS AS PESSOAS (18). A Paz é um dos grandes temas do Reino de Deus. Faz parte do projeto de Jesus Cristo. “Se possível, quanto depender de vós...” Todo o esforço para a paz.

12. A AUSÊNCIA DE VINGANÇA (19, 20). Deus é Deus de justiça, por isso nada de vingança. A vingança é a paga do mal pelo mal.

13. TRIUNFAR SOBRE O MAL ATRAVÉS DO BEM (21). O mal não tem mais força que o Sumo Bem que é Deus, o nosso amigo. Onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus.

________________________________________

[1] Cf. NETO, Rodolfo Gaede. A Diaconia de Jesus: uma contribuição para a fundamentação teológica da diaconia na América Latina. São Leopoldo: Sinodal: Centro de Estudos Bíblicos; São Paulo: Paulus Editora, pp. 9-12.

[2] Cf. Ibid.

[3] ROCHA, Nelson Célio de M. Igreja: Comunidade de Serviço. Monografia do Curso de Bacharel em Teologia. Rio de Janeiro, pp. 55 ss.

[4] Mateus 16.18-19, SBB, ERC.

[5] ROCHA, Nelson Célio de Mesquita. Virtudes e práticas da Igreja de Cristo. Cordeiro, RJ, 27 de novembro de 1994. Adaptações feitas em Rio de Janeiro, 05.02.2003. O Título inicial era “Qualidades do Caráter da Igreja”.

terça-feira, 12 de julho de 2022

ORDEM POLÍTICA E ORDEM MORAL - PARTE 2

 

3.      Fundamento ético da ordem política

3.1.Pressuposto fundamentais

Primeiro – É de natureza teológica e se refere à afirmação sobre a essência não meramente escatológica do Reino de Deus, presente já no mistério. Existe uma relação que não é de mera identidade, nem de pura diferença, mas a expressão de uma tensão dialética entre a presença e a ausência da santidade e da justiça divina, também entre as contradições e oposições da história humana. 

Segundo – É de natureza ética e propõe como fundamento ético o justanaturalismo clássico, conforme o qual a razão moral nunca pode vir subordinada à razão política. A ordem política tem um fundamento ético, dado que a ação da liberdade histórica deve ser iluminada pela consciência moral. Portanto, a Igreja deve procurar com o ministério da Palavra, iluminar simultaneamente as consciências e robustecer a vontade no exercício histórico da liberdade. Ainda, a ação da Igreja interessa diretamente a consciência moral; contudo, indiretamente pode chegar até a esfera política, mudando progressivamente a realidade social.

Terceiro -É de caráter epistemológico e considera o pluralismo dos modelos e paradigmas, que procuram configurar a estrutura da realidade social. A Igreja, enquanto comunidade de fé, procura antes denunciar os erros e as contradições do ponto de vista da justiça, para depois propor princípios que possam melhorar a configuração das instituições políticas do ponto de vista ético.

3.2.Princípios ético-políticos 

O Estado deve procurar o bem comum sem prejudicar os direitos fundamentais dos indivíduos.

Princípios que devem ser salientados:

a) O primado da pessoa humana em ordem aos fins. Reconhecer na esfera do direito a dignidade da pessoa humana, que na esfera da religião é reconhecida também como imagem de Deus.

b) A afirmação do bem comum como valor do Estado, negando o Estado autocrático, no qual de fato são incentivados privilégios e desigualdades. Sob essa ideia se pensa o conjunto de condições que permitem aos indivíduos, famílias e instituições sociais de chegar à própria perfeição.

c) A importância da participação de todos na vida política, como assunção ciente e livre da própria responsabilidade no conjunto do processo político social, econômico e cultural. Somente desta maneira se pode permitir a superação da alienação política em todas as suas dimensões.

4.      Alguns corolários e pressuposições críticas

4.1.Crítica teológica das ideologias

Uma crítica é feita, principalmente, quando se trata de sistemas totalitários, sejam eles da filosofia marxista, da ideologia da segurança nacional e do liberalismo tecnocrático.

          O progresso não deve ser procurado exclusivamente na esfera econômica do aumento da produção, mas no melhoramento da distribuição do lucro e, sobretudo, na ordem política, social e cultural, para uma melhor participação em todos estes níveis.

          Se requer, portanto, um sistema político no qual exista uma verdadeira participação de todos os cidadãos, a tutela jurídica dos seus direitos, a promoção das instituições intermediárias, o equilíbrio dos poderes do Estado e uma justa representação política de todos.

4.2.O estado democrático como ideal político

A ideia democrática se concretiza na história por meio da liberdade política. Pode-se considerar o foco na visão teônoma,[2] possibilitando uma antropologia teológica centrada no homem enquanto imagem de Deus.

          A dignidade humana não é, portanto, uma mera indicação orientativa, mas um verdadeiro imperativo moral, ao qual deve ser subordinada à mesma razão política. Assim, a ideia do bem comum traz consigo a construção do Estado de Direito. É preciso haver um trabalho educativo das consciências, repletos dos imperativos morais da justiça os quais devem ser sempre considerados, para poder procurar o melhor progresso social, particularmente dos mais marginalizados.

          A ideia democrática se encarna na sociedade pelo agir da vontade responsável, respeitosa particularmente da liberdade e dignidade dos outros. Assim, é fundamental que haja a passagem do Estado autocrático para o Estado democrático, que tem como função o bem comum, do exercício do direito de cidadania e de todos os trabalhadores.        

          A participação de todos é importante no reformismo social, através de movimentos. Isto deve ser constantemente procurado.

Conclusão

Algumas tomadas de decisão da ação da Igreja na sociedade:

1.      A Igreja deve lutar contra as diversas formas de totalitarismo. 

2.      A ação da Igreja tem de ser crítica, denunciando profeticamente as injustiças.

3.      A Igreja, com sua mensagem, convoca a todos à instauração de uma nova ordem social inspirada pela justiça, solidariedade e paz, dada à íntima relação que existe entre a história e o Reino de Deus, já que o Cristo é simultaneamente presença do Reino e Senhor da história.

4.      A Igreja, enquanto instrumento de reparação da natureza caída, esforçar-se para que os direitos naturais sejam conhecidos e reconhecidos.

5.      A participação de todos, com respeito e liberdade política.

6.      A única alternativa: o Estado Democrático de Direito, formar a consciência política em cada cidadão.

7.      Exigências comunitárias e reformismo social na gestão política, com urgência, precisam ser pautas principais da dinâmica da Igreja.

Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha




[1] Este texto é fundamentado em anotações da obra de PASTOR, Félix Alexandre. O Reino e a História. Problemas teóricos de uma teologia da práxis. Fé e Realidade, Loyola: São Paulo. 1982, pp 113-128.

[2] Cf. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5ª Ed. Rev., pp. 68, 97-99, 157-159, 216, 247, 611, 660, 691-708, 711, 712, 713, 714. O autor propõe o conceito de “Teonomia” em lugar dos conceitos de “Autonomia e Heteronomia”.








segunda-feira, 11 de julho de 2022

ORDEM POLÍTICA E ORDEM MORAL - PARTE 1

 

1. Problemática ético-política fundamental

Existe um nexo entre religião e moral e simultaneamente entre ética e política. Assim, não se pode abstrair dos problemas da justiça social, quando se proclama a mensagem religiosa. Todos os problemas morais têm um fundamento religioso. E o papel da Igreja é enfrentar questões de justiça e de direito, quando quer propor a sua mensagem religiosa, que recolhe as instâncias proféticas de tradição bíblica e da moral evangélica.

Existe um vínculo profundo entre a mensagem evangélica e a justiça humana. A Igreja deve se manifestar diante de todos os regimes totalitaristas que se levantam; deve agir em favor dos injustiçados, dos pobres que são esmagados. A proposta cristã, tem como natureza e destino um conceito diverso do Estado, finalizado ao bem comum, guarda dos direitos fundamentais dos cidadãos e de todas as exigências sociais. Assim, haverá sempre uma tensão entre Igreja e Estado.

2. A missão profética da Igreja

2.1. O momento crítico da missão profética

A Igreja quer oferecer ao povo de Deus uma mensagem de esperança, e exercendo sua ação profética, denuncia todo o tipo de agressão à vida humana, em um contexto onde ricos e se tornam mais ricos, e pobres mais pobres.

A Igreja proclama uma mensagem de libertação integral, como fruto da humanidade remida, em ordem a um crescimento da justiça e fraternidade entre homens e mulheres, alcançando até mesmo a biodiversidade.

Ainda que o Reino de Deus não coincida necessariamente com o progresso humano, existe uma relação íntima entre escatologia e história, dado que o plano divino deve incidir na história humana e a prática da caridade implica múltiplas exigências de justiça.

A mensagem evangélica procura a conversão individual e comunitária. A mudança de cada um e a transformação da sociedade, no espírito do Evangelho. O Evangelho modifica a história, porque implica a libertação do pecado e a criação do homem novo. Assim, os imperativos religiosos e éticos se apresentam como fundamentais: justiça, liberdade, paz e caridade.

Não é somente uma tomada de consciência por uma teoria social apenas, mas se exige também a prática libertadora. Isso porque a Igreja não pode esquecer o juízo crítico da tradição profética sobre as injustiças na sociedade, nem sequer pode esquecer-se do imperativo evangélico da caridade fraterna.
2.2. A Igreja e a promoção da justiça

A salvação evangélica não pode prescindir dos problemas conexos com a libertação humana de cada um e da sociedade em conjunto, para fazer com que o pecado e as suas consequências sejam eliminados individual e coletivamente.

Libertação do pecado significa também libertação da fome e da opressão, da violência e do erro. No contexto de opressão social, é necessário anunciar a salvação cristã sob o sinal da cruz, encorajando os encarcerados e oprimidos, criticando evangelicamente os opressores e injustos.

O dever da comunidade eclesial é de educar os povos, para que seja superada toda forma de egoísmo e injustiça, para que sejam mudadas as estruturas sociais injustas e para que se desenvolva o justo progresso humano. Também, promover a libertação integral dos marginalizados e oprimidos, no espírito das bem-aventuranças, pois, a salvação cristã deve redimir a história. Assim, a Igreja convida as pessoas a instaurar uma nova ordem de justiça e de paz.

Rev. Nelson Celio de Mesquita Rocha

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